domingo, 24 de maio de 2026

Hino a Dionísio Areopagita

 

Celebro aquele, entre os preclaros filósofos,
que, tal qual Odisseu, a Verdade defendeu.
Quando a mão insolente e inclemente da tirania
buscava em trevas eternas nos calar,
De engenho astuto e espírito elevado,
em livros e cartas a antiga Sabedoria verteu.
Como fiel do culto, disfarçado se apresentou
e, com arte, soube os tiranos enganar.
Assim sobreviveu, entre sombras, a luz
de Plotino e Proclo, a ontologia e a teurgia platônica.
Um outro credo, fascinado, o fundamento copiou:
a Causa Primeira, supraessencial, mais que boa, nele floresceu.
Intercedeu então Ateneia por nós,
e Pletho, o filósofo, veio novamente ensinar.
Do Norte da Itália surgiu o ardor,
e o forte Malatesta um novo templo ergueu.
De toda a Europa acorreram os sábios,
fascinados, aos antigos textos estudar.
Ateneia, senhora do segundo Cavalo de Troia,
triunfou — e a Ciência, enfim, renasceu!

terça-feira, 19 de maio de 2026

Hino a Marte

Hino a Marte
 

Oh adorável Marte!
Deus poderoso e fero, da justiça escudo e gládio,
quando a dissídia, face do vetusto caos,
pela ambição comandada, à ordem e ao belo ameaça,
por mandato de Juno, aos arrogantes pões fim.
  
 
Do amor és o consorte, da vida e família,
da santa união dos esponsais,
dos seus filhos, santo guerreiro.
 
 
Deus dos desditos, aos desvalidos que Roma fundaram,
lhes insuflaste honra, coragem e razão,
Imortal império então edificaram. 

Ilumina-me, ó altíssimo Marte,
com elas, sejam em mim o teu ministério.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hino Hierofântico a Circe

O prudente e facundo Mercúrio, sútil e poderoso, as almas conduz ao caliginoso Averno de amplos portões. O prado coberto de asfódelos de umas o destino, de outras o hórrido e cruento Tártaro. Cena terrível de se descrever!


Na silente noite, Érebo já vai na sua quadriga a meio do estrelado polo; cá embaixo, pela espessura da mata, vejo aquela que as estações confunde a variedade, que transforma os mais aguerridos varões em torpes brutos, seu sorriso me confunde, mas dela conheço os artifícios. "A procissão avernal pela noite vai, os manes desditos pela volta à vida imploram, logo o retorno terão! Pelo Orco, o estígio monarca, o perfeito e lastimoso sofista, todos persuadidos que a vida no esquema da matéria sumo bem é!", proclama ela.


Todos eles a Janus seguem, o antigo Caos grego, do umbral das eras o venerando regente. Acima dele as estígias Fúrias revoam, aspérrimas algozes do delito e da insolência.


"Circe, explica-me o que meus olhos veem, a turba do ínfero mundo a mãe Terra visitando. Sentido nisso para mim não há".


"Reinos três, trina monarquia. Terra porém é bem comum. O dia a Febo pertence, Jové olímpico então o império tem. Quando a incerta Diana no cerúleo Aventino caminhando vai, é do profundo Averno a vez".


"É do consorte da belíssima e sábia Prosérpina o terrível engodo, a convencer os manes a esta instância voltar. Veja lá Agamenon, nova Tróia e obedientes exércitos na mente já cogita conquistar e comandar. Helena, outro Páris encontrar, Cícero sua palavra ressoando pelo senado o desejo lhe incita. Em ardis o Orco supera o grego por Minerva protegido. Destarte, o ciclo nunca termina. É assim que o cosmo se orienta, permanência a esta esfera não cabe. Veja lá como Eneias se horrorizava, que triste desejo de vida é este? se perguntava. Mas seu pai, por Orco inspirado, disse-lhe que a glória eterna o esperava, invencível cidade na próxima jornada habitaria. Mas só escombros e desolação, sombra fanada do passado, a Roma desta era, dos troianos o príncipe encontrou".


"Sensatez e clemência, feiticeira — virtudes que o seu nome não carrega, é o que falam, mas noto que em muito errados são estes juízos", digo.


"Mortais nenhuns me entendem a intenção. Transformo ferozes criaturas, guerreiros habituados ao morticínio, ao saque e ao aprisionamento e venda dos seus iguais em pacíficos animais que contra os seus não se voltam, que nem no gládio ou no escudo são exímios. Por isso, de mim nada tema. Se meus encantos tem poder, é porque da santa e alta inteligência eles provém. Se um dia confuso e em perigo estiver, a mim me invoca que não tardo a vir socorrê-lo”.



domingo, 10 de maio de 2026

Mês Julho em honra de Júlio César

Júpiter o orbe observava. Triste seu semblante! Sobre os campos de Ceres, quase por todo mundo, nem paz nem lei havia, barbárie apenas.
Imperioso, o Pai Onipotente, sua filha Vênus ao palácio dos céus convocou e assim lhe disse:
"Filha querida, do Amor e dos sorrisos a mãe, da latina gente, da sagrada Roma, a absoluta guardiã. Lá justiça impera, há ordem pública, boa fé e piedade. Ao mundo, tão rude, tudo isto falta. De um dos seus, nume o farei, e dar-lhe-ei o comando das ínvias terras, onde preceitos de Licaão inda imperam, e ele irá domar os selvagens, impor-lhes pias leis, punir os soberbos e proteger os humildes".
Exultante, Vênus à sua santa Roma desceu. Lá, junto de Juno Lucina, viu César nascer. Chamou a si a gloriosa Palas Minerva e o terrível Marte, ambos em harmônia, ao nato educaram. Justiça, Concórdia e Persuasão, todas elas e mais as Graças, os passos do deus menino, atenciosas, acompanharam.
Com as armas e a palavra, César pacificou o mundo. Aos aspérrimos povos, deu-lhes de Roma as leis e a cultura, fez a luz santa do pai Jove sobre a Europa refulgir.
Assim que a alma de César do seu corpo mortal se libertou, todos os deuses se perfilaram a receber nos céus o novo nume, o libertador dos povos do vício da brutalidade. Em sua honra, Juno assim proclamou: "Que se siga ao meu mês, o mês do homem tornado deus. Assim, depois de Junho, venha Julho, do piedoso Júlio César, e que todos os imortais e mortais saibam, esta gente latina, como a argiva, pelasgos ambos, sempre foi também minha!"
E, em honra aos trabalhos de Júlio, Julho leva-lhe o nome.

Hino à Hécate

Virgem infernal, intocada e gloriosa,
De Ceres a guia, tochas às mãos
levou-a pela Noite à procura da filha.
Canto-a, divinal Hécate, a Trivia,
da belíssima Proserpina a sócia.
Ó Hécate, das virgens imaculadas,
tão somente, agrada-te a companhia,
pois muito prezas o Pudor e a Modéstia.
Santa deusa avernal, na primavera,
a consorte do Orco escoltas ao preclaro
Olimpo cuminoso, onde mãe e linda
filha em luz e paz se reencontram.
Bento teu ministério, Hécate dos
flamejantes e luminosos archotes.

sábado, 9 de maio de 2026

Hino a Mercúrio - Interpretação de Proclo

Hino Homérico a Mercúrio

Canto o Cilênio Mercúrio, argicida, senhor da ampla Arcádia rica em rebanhos, angélico arauto, portador do caduceu, que os decretos dos deuses anuncia e a Concórdia faz triunfar na corte celestial. Ele nasceu de Maia, a Filha de Atlante, quando se uniu a Jove — deidade na dissimulação engenhosa. Nunca ao coro dos bem-aventurados que para sempre são compareceu e viveu em sombria caverna; ali o Filho de Saturno costumava deitar-se com a Ninfa de belas madeixas, silentes ambos no regaço da lânguida noite, enquanto Juno de níveos braços jazia presa em doce sono; e nem Nume imortal, nem humana criatura jamais o soube. E assim, salve a vós, Filho de Jove e de Maia; convosco comecei, agora passarei a outro canto! Salve, Mercúrio, dador de ínclitas graças, guia astucioso e facundo, que em vossos mistérios sejamos instruídos! 


Interpretação de Proclo


Mercúrio, ou Hermes, é para Proclo o princípio metafísico que opera como mediador, guia e potência intelectiva de compreensão do cosmos sensível.

É o nume da descoberta (heurêsis) e da razão. Maia instila a investigação nas almas capazes de receber a luminosidade superessencial. Assim, a razão é o "rebento da teoria e da busca". Hermes, como filho de Zeus e Maia, representa o momento em que a busca intelectual atinge a iluminação da descoberta. O homem de conhecimento que ensina métodos de descoberta aos outros está a imitar Hermes, o Guia.

Como mediador entre a ordem celestial e a sublunar, Hermes é o responsável por ligar os fins de uma ordem anterior ao início da ordem subsequente, servindo como meio de comunicação em toda a estrutura cósmica. É o intermediário que transmite o conhecimento e a vontade divina até ao nível humano. Por exemplo, é Hermes que transmite a Calipso o decreto de Zeus pelo qual Odisseu deve proceder ao retorno. Da mesma forma, é ele quem recorda a Eneias o imperativo dos Fados: "Se o brilho das altas façanhas nada tem que te inflame e se não empreendes nada com vistas à tua própria glória, vê Ascânio que cresce e as esperanças de teu herdeiro, Iulo, a quem são devidos o reino da Itália e a terra romana" ( Virgílio, Eneida IV ).

Proclo divide as dádivas ou poderes de Hermes em diferentes níveis de realidade:

  • Intelectuais: Bens primários e puramente intelectivos.
  • Discursivos: Aperfeiçoam o pensamento racional e retórico, persuasivo.
  • Purificatórios: Purificam a alma da irracionalidade e moderam os movimentos da imaginação.
  • Naturais: Propiciam o entendimento da natureza e do mundo sensível.
  • Materiais: Conferem os poderes necessários à atividade comercial. Por isso, é considerado o deus guardião dos lucros, razão pela qual o nome "Hermógenes" (personagem do diálogo *Crátilo*) é interpretado como aquele cujo lucro é "um presente de Hermes".

Em suma, para Proclo, Hermes é a Inteligência comunicativa, o Arauto ou Embaixador dos numes, que traduz as verdades inefáveis das ordens superiores para formas que a alma humana pode investigar, descobrir e compreender.

sábado, 2 de maio de 2026

Hino a Palas Minerva

Ave Altíssima Palas Minerva, filha unigênita do Deus Pai Todo-Poderoso, que benta e imaculada em pios algares aos estígios Manes próximos peregrinas.
Belipotente Potestade, Minerva de brilhante olhar, assinalada virgem, magnânima e formosíssima, eterna fortaleza dos teus teus fonte das graças e da infinita sabedoria do Nosso Senhor Jove, dos deuses e dos mortais o Pai Supremo.
Virgem Soberana, das artes e dos engenhos a divina essência, chama imortal que o caminho dos justos ilumina.
Palas Minerva, do homem e da mulher o espírito, a guia imaculada, a guerreira implacável e invencível, dos piedodos e dos suplicantes a protetora.
Imaculada Filha de Deus Pai, dulcíssima virgem, Tritogênea Minerva, atende minhas preces, minha alma e meu coração pelas tuas benções e pela tua divina proteção exortam e clamam.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

HIno a Hefesto

Hefesto, nume supremo dos arsenais,
intelecto inexorável que ao Pai Zeus
as armas da vitória forneceu.
A tua grande queda, a dor — corpo e coração mutilados —,
por Tétis, belíssima e sábia, foste acolhido;
os sofrimentos, na arte dos metais, transmutados,
os teus prodígios pelos vates sublimados.
Quando o Mundo também a mim me é infausto,
a ti, Hefesto, suplicante te imploro,
forja-me as armas e o escudo
com as tuas mãos hábeis e generosas e da alta vitória o caminho me desvela.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Hino Órfico a Saturno

Santo pai dos homens e dos deuses que habitam os céus,
onipotente Titã, de engenhoso pensar e dono de força prodigiosa,
que em si contém todas as coisas e que para si as devora,
acorrentado por arcanos grilhões à vastidão silente do mundo.
Saturno, pai do Tempo; Saturno, pai da Eternidade,
Filho de Gaia e Urano, o céu, povoado de estrelas.
Fonte primeira, Titã indestrutível, potestade favorável,
onipresente sobre todo o orbe, seja propício a nossos desejos,
e dê a nós, mortais, um final feliz às nossas vidas,
Dê-nos da transmigração propícia o teu altíssimo consentimento.

Explicações:

Apesar do muito que dizem por aí de Saturno, toda essa besteira proveniente da idade média e da renascença, Proclus é taxativo em afirmar que Saturno é um deus puramente intelectual, é a fonte de toda a inteligência, destarte, é o nume dos filósofos. Citando Proclus na tradução de Thomas Taylor: "...this God the first and most pure intellect. This God, therefore, is the summit of a divine intellect, and, as he ( Sócrates ) says, the purest part of it".

Mas ele não devora os filhos? Não é um deus mal, malígno?

Não, não o é. Os poetas usavam da metáfora para expressar o ciclo da vida através de Saturno. Ele dá a vida a nós, mortais, e nós a ele retornamos no momento da nossa morte para reiniciar um novo ciclo, o ciclo da geração e corrupção ou, simplesmente, o ciclo da gênese. A lembrar que, para os gregos, tudo aquilo que veio a ser, há de deixar de ser, nada escapa ao nascimento e a morte, sendo isto o que nos diferencia dos deuses, o que, porém, não significa a dissolução da alma, pelo contrário, esta continua a viver através de outras identidades. E é Saturno o nume que nos assegura a nós uma boa "reencarnação".

Portanto, esqueça o que a renascença escreve sobre Saturno. Leia mais sobre ele na magnífica obra de Platão e Proclus.

É Zeus, Deus, Jove ou Júpiter, afinal de contas?

Muitas vezes, o leitor brasileiro, procedente duma cultura católica, cristã, que tem o livro como objeto de reverência e adoração, fica confuso com os excessos de liberdade literária da cultura greco-romana.

Uma das principais dificuldades daí decorrentes refere-se aos nomes divinos, às suas funções e justa ordenação. Por exemplo, para ele Vênus é a deusa do amor e Minerva das prendas domésticas. Pois bem, fico a imaginar a sua perplexidade quando se defronta com alguma estátua de Vênus proveniente de Esparta, na qual a nume era uma deusa da guerra! Era ela designada como Afrodite Areia, ou a guerreira.

Da mesma forma, a Minerva romana, deusa dos bordados, segundo Ovídio, é referida por Homero como a “destruidora de muralhas”, a deusa que se deleita na guerra e no morticínio. Mas nosso amigo cristão trata de se defender dizendo: “mas se Palas Atena era a deusa da guerra, era a deusa da guerra justa”.
Não, não era! Não existe nenhuma noção de “guerra justa” na antiguidade. Guerra era guerra sem qualquer adjetivo. E a “deusa da guerra justa” aceita sacrifícios humanos, como fez Ulisses, ao matar um inimigo e consagrar-lhe a morte à deusa.

“Mas esses gregos e romanos não respeitam os livros, o Hesíodo?”

De fato, eles os respeitam, mas creem que foram escritos por mortais, sem qualquer “inspiração divina”. Se Homero ou Hesíodo eram cultuados pela beleza dos seus textos, por apresentarem várias facetas do reino divino, eram tidos como pessoas comuns, iguais àqueles que os liam. Portanto, se a opinião do leitor diferisse da deles, não haveria nenhum problema. Para ilustrar minha tese, veja como Platão e seus amigos dão diversas interpretações sobre a origem dos deuses no Banquete e leia a versão platônica da criação no Timaeus.

Enfim, não havia nenhuma Bíblia para os gregos e os romanos, assim a interpretação que davam aos seus e mitos era excessivamente livre para nós, que transformamos teorias e livros em verdadeiros “ídolos”.

Agora, voltado ao assunto deste escrito, como se deve chamar a um nume, pela nomenclatura grega ou romana? Tanto faz, os deus iriam entendê-lo em quaisquer dos casos, afinal são bem mais inteligentes do que nós. Ovídio, por exemplo, trata a rainha dos infernos, a Juno Avernal, tanto como Prosérpina quanto por Perséfone.

Portanto, se você juntar Zeus e Jove, Minerva e Atena ou Vênus e Afrodite numa mesma frase ou parágrafo, para um grego ou romano não haveria nenhum problema. Nenhum! Já para um indivíduo educado pela nossa academia, isso seria um erro, ou melhor dizendo, um “pecado”. Esses caras são tão fundamentalistas que até mesmo corrigem Camões ou Shakespeare, Ovídio e Virgílio!

Seja como os gregos, seja como os romanos, seja livre!

sábado, 14 de julho de 2007

Deuses Lares

Que são os deuses Lares? Ora, em Latim, Lar significa "lareira", "lar", "casa". Seriam eles, assim, deuses domésticos que protegem a habitação e a família. No entanto, sua origem está vinculada ao nascimento de Júpiter.

Segundo Hyginus, quando Júpiter nasceu, Juno pediu a Opis ( Rhea ) que lhe desse o bebê sob sua guarda uma vez que Saturno já havia confinado Orco ao Érebo e Netuno sob as águas do mar e prometera devorar o recém-nascido. Comovida, Opis deu-lho a ela que o escondeu em Creta, na gruta de Dicte. Amaltea tomou-lhe guarda e alimentou-o, já que Juno era apenas uma bela e formosa menina. Saturno, revoltado, saiu em perseguição ao filho por todo o mundo. Quando o Deus menino chorava, Amaltea chamava jovens que batiam com as espadas nos seus escudos de bronze, fazendo tanto barulho que Saturno não conseguia ouvi-lo. Ora bem, na Grécia esses jovens chamavam-se Curetes, em Roma, Lares.

Portanto, da mesma forma que os Lares protegeram a Júpiter, protegem também a nossas habitações e famílias.

Hyginus, Fabulae 139.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Hino a Zeus Salvador

Ó Zeus, sumo padre todo-poderoso, do Destino e do Universo monarca imperioso. Ó Zeus, deus dos suplicantes, atende à minha prece dita em língua bárbara.

Santo padre, és tu a razão, és tu a inteligência, és tu o império sólido da bondade. Foste apenas tu que ensinaste aos homens que o corpo e a alma em oposição vivem. Se este meu corpo à mãe Terra pertence, minha alma imortal aspira a viver junto a ti, no teu glorioso reino celestial.

Ó santo santíssimo, deus absoluto e supremo, da Discórdia sou fruto, do ferro vem meu coração. Piedade, santo pai, e livra este filho da Terra, descendência terrível de Licaão, da angústia e da aflição que aos mortais é selvagem condição.

Ó tu, Zeus bem-aventurado, pai dos deuses e dos mortais, sejam em mim tuas dádivas, seja em mim teu augusto entendimento, posto que, como tu ensinaste, só a razão livra do mal o homem, só na sabedoria existe para a alma a salvação.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Hino Órfico à Hera

Ó Rainha abençoada, ó deusa, és tu Hera, mulher e irmã de Zeus.
Ó tu que reinas sem par sobre a raça dos homens, tua atenção invoco e suplico.
O ar sublime que respiro é suave como tu. És tu, madre divina, que me nutres com a vida, e inspiras-me cada desejo que arde, aqui, no meu coração.
É esta tua graça, ó rainha entre rainhas, deusa entre deusas.
Mãe das nuvens, compartilhas comigo do teu divino temperamento,
Dá a mim a benção da tua graça, dos talentos que só tu os tens.
Com a benção dos ventos que a ti pertencem, com o mover-se do mar, da terra e dos céus,
Vem a mim, ó imortal bem-aventura, ó deusa Hera do sólio de ouro,
Sê a mim benevolente, acolhedora e serena.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O que é uma divindade "alegórica"?

As divindades "alegóricas" - como Força, Poder, Loucura, Petulância, Fortuna e tantas outras - são assim designadas por não terem "vontade própria" como as demais divindades quer Olímpicas, quer Telúricas quer Subterrâneas.

Por exemplo, na peça de Ésquilo "Os Persas", vemos como a Loucura ( Até ) leva Xerxes à derrota. Porém, a Loucura não tem uma forma definida, não tem personalidade como Marte, Minverva ou Vênus. Ela simplesmente obedece às ordens de Zeus, que "pune os mortais, soberbos em demasia, que pretendem rivalizar com os deuses". Ou seja, ela é um "instrumento" da justiça, ou da vontade, divina.

Em "Prometeu Acorrentado", a Força e o Poder ladeam Vulcano enquanto este prende Prometeu. Vulcano sente-se mal por o fazer, porém a Força e o Poder não exprimem qualquer sentimento, são apenas agentes da vontade de Zeus.

Portanto, Sonho, Sono, Lei, Decência, Pudor, Luxúria, Poder, Loucura e outras tantas divindades que povoam o imaginário da mitologia greco-romana não são nada mais do que os "agentes" das vontades dos deuses soberanos, como Júpiter, Juno, Miverna, Vênus, Prosérpina e outros mais.

Qualquer dúvida sobre isto, abra a Ilíada, Livro I, e leia como Zeus convoca o Sonho para enganar Agamenon. O Sonho - uma divindade alegórica - simplesmente lhe segue o comando, sem hesitações ou sem demonstrar qualquer traço de personalidade.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Deuses Alegóricos: Disciplina, Êxito e Salvação

"Invoca os deuses, mas conduz-te sabiamente. Pois, a Disciplina (Peitharkhia) é a mãe do Êxito (Eupraxia), esposa da Salvação (Soter) ".

Ésquilo

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Interpretação alegórica dos mitos

É muito significativo registrar e fixar que os gregos e romanos interpretavam seu mitos de uma maneira alegórica. Ou seja, não acreditavam que os deuses eram exatamente como eram retratados pelos poetas e vates.

No caso do "Julgamento de Paris", que deu início à guerra de Tróia, Clemente de Alexandria oferece-nos esta interpretação:

"Diz-se que Mercúrio é a linguagem, as instruções pelas quais a mente é informada e educada. Juno é a castidade, Minerva a coragem, Vênus o prazer, e Paris o entendimento. Se o homem é bárbaro e sem cultura, ignorante do julgamento justo e correto, ele irá desprezar a castidade e a coragem, e dará o prêmio, que é a maçã, ao prazer, e assim atrairá a si e aos seus a ruína e a destruição". Como Paris era troiano, era bárbaro; como era pastor, ignorante, e assim atraiu a ruína à Tróia.

Esta citação de Clemente é muito instrutiva pois mostra-nos que por atrás do antropomorfismo da mitologia grega e romana residia um sentido profundamente espiritual e simbólico.

Reencarnação e Destino

Encontra-se em Claudiano, "O Rapto de Proserpina", este diálogo entre uma das Parcas e Orco Estígio, na sua vácua morada, que esclarece qual é a relação entre o terrível Hades e o destino dos mortais.

Pois bem, Láquesis desce ao vácuo reino de Plutão, e dirige-se assim ao Monarca do Inferno:

"Ó tu, Júpiter Estígio, rei da noite, soberano das sombras, que comandas o girar fatal do nosso fiar,
Que imperas sobre o fim e o início de todas as coisas
E ordenas-nos a data fixar do nascimento e da destruição dos corpos dos homens mortais.
Ó Monarca Supremo do Averno, és tu o árbitro supremo da vida e da morte.
Tudo aquilo que vive só veio a ser por teu favor divino,
E após o ciclo da vida se expirar
E as almas baixarem ao teu hórrido e vácuo reino,
És tu a enviá-las de volta à vida,
De volta a habitar novos corpos mortais".

É de se notar que o destino é comandado pelo temível Hades, pois é ele a quem as Parcas se submetem. Assim, não é à toa que Júpiter não altera o destino dos mortais, ele foi escrito pelo seu irmão Dis, o nefasto. Por outro lado, é ele a comandar o ciclo da vida e também o ciclo das reencarnações, junto com a sua bela consorte, a dadivosa Proserpina, aquela que deu vida à raça dos mortais.

quarta-feira, 27 de junho de 2007

Hino Homérico a Netuno

Onipotente Netuno, que reina à vasta e fértil Helicão, atenda meu voto! Manda-me ventos favoráveis, assegura-me boa navegação através do salso ponto. Permita-me, ó abalador da terra, ó monarca do imano pélago infrugífero, chegar ao meu destino na terra de homens altriz. E que eu só encontre homens como eu justos e pios, e que caminhe sob a proteção de Júpiter, protetor dos estrangeiros e da deífica hospitalidade.

sexta-feira, 22 de junho de 2007

A Criação para Ovídio e Pitágoras

É interessante notar como Ovídio é um tanto desprezado pela modernidade. Geralmente, aclamado com um poeta de variedades, um mero libertino extremamente culto, é colocado num posição menor face a Homero, Hesíodo e a Virgílio. Sua grande obra "Metamorfoses" é praticamente lida como uma espécie de compêndio de "lindas estórias" da mitologia grega com a advertência de que ele não é "respeitoso" para com os "deuses".

Que mundo caralola! Ovídio é justamente um dos poetas mais fascinantes do mundo antigo pela característica esotérica dos seus textos! Tome-se "Metamorfoses" como exemplo. O livro é dedicado a Pitágoras e segue-lhe os ensinamentos, contendo até mesmo uma louvação pessoal ao filósofo que "ensinou aos homens que a alma é imortal e habita ora um corpo, ora outro".

Até mesmo a teogônia que Ovídio apresenta, considerada inferior à de Hesíodo ou uma cópia de algum texto oriental, está, contudo, totalmente mergulhada no esoterismo de Pitágoras.

Vejamos, para este, o símbolo da divindade é o Pentagrama ou o Pentágono. Os quadros ângulos inferiores representam os quatro elementos: água, ar, terra e fogo. O ângulo superior indica Deus ou a Alma humana. Tanto a criação como o ser vivo são explicados como a combinação dos quatro elementos em medidas variadas mas ordenados pela Idéia Divina, o ângulo superior do pentagrama.

Ora, é essa representação que Ovídio nos oferece da criação. Um Deus, um Ser superior, ordena os quatro elementos a partir do seu Caos inicial.

"Antes de existir o oceano, a terra e o céu, a Natureza era toda igual, um disforme Caos, constituído de matéria grosseira. [...] Até que deus, ou uma ser de mais alta natureza, arrumou tudo. [...] A força do fogo, esse elemento sem peso, reclamou o posto mais elevado no céu. Debaixo dele o ar, e sob os dois a terra, socada em porções maciças. A água, colocada mais abaixo de todos, cobriu e preencheu a terra" ( Metamorfoses I, I ).

Portanto, deve-se ter um certo cuidado quando se ler Ovídio. Ele celebra tanto a arte de amar quanto se preocupa com a imortalidade da alma e a criação do universo sob um ponto de vista esotérico, no caso o pitagórico, que iriam exercer uma enorme influência tanto na filosofia quanto nas artes do renascimento.

A Justiça de Zeus

A concepção de justiça ( Diqué ) dos antigos gregos é um tanto difícil de ser entendida por nós, que temos uma moral baseada no catolicismo. Geralmente, procuramos encontrar a nós próprios nos autores da antiguidade e o resultado é um desastre que faz lembrar um pouco os americanos comentando a Bíblia, e nela encontrando a profecia do "arrebatamento" e coisas alucinógenas do gênero.

Pois bem, um dos autores que mais sofre o efeito da leitura moderna de seus textos é o pobre Hesíodo. Por todo o canto, ouço e leio que ele é o "defensor da justiça", introduz o conceito de "Diqué" ( que não é um conceito, mas uma deusa ) no "solo da história grega". Pois bem, não o discuto, não sou louco, e fico na minha. Mas blog é blog e então digamos a verdade, Hesíodo defende a justiça, sim, entretanto de uma maneira muito limitada e particular. No seu texto "Os Trabalhos e os Dias" ele adverte-nos claramente que:

"Devo dizer que nem eu mesmo sou justo entre os homens nem meu filho, posto que é mau ser homem justo, se o injusto vai ter maior justiça" ( 272 ).

Ora, como Hesíodo mesmo diz, "versátil é o espírito de Zeus, portador da Égide, e difícil de se compreender para os homens sujeitos à morte". E essa mesma "versatilidade" deve ser aplicada aos assuntos humanos: ao justo a justiça, ao injusto a injustiça. Mesmo que isso não seja o ideal, assim é a vida.