Hino Homérico a Mercúrio
Canto o Cilênio Mercúrio, argicida, senhor da ampla Arcádia rica em rebanhos, angélico arauto, portador do caduceu, que os decretos dos deuses anuncia e a Concórdia faz triunfar na corte celestial. Ele nasceu de Maia, a Filha de Atlante, quando se uniu a Jove — deidade na dissimulação engenhosa. Nunca ao coro dos bem-aventurados que para sempre são compareceu e viveu em sombria caverna; ali o Filho de Saturno costumava deitar-se com a Ninfa de belas madeixas, silentes ambos no regaço da lânguida noite, enquanto Juno de níveos braços jazia presa em doce sono; e nem Nume imortal, nem humana criatura jamais o soube. E assim, salve a vós, Filho de Jove e de Maia; convosco comecei, agora passarei a outro canto! Salve, Mercúrio, dador de ínclitas graças, guia astucioso e facundo, que em vossos mistérios sejamos instruídos!Interpretação de Proclo
Mercúrio, ou Hermes, é para Proclo o princípio metafísico imóvel que opera como mediador, guia e potência intelectiva de compreensão do cosmos sensível.
É o nume da descoberta (heurêsis) e da razão. Maia instila a investigação nas almas capazes de receber a luminosidade superessencial. Assim, a razão é o "rebento da teoria e da busca". Hermes, como filho de Zeus e Maia, representa o momento em que a busca intelectual atinge a iluminação da descoberta. O homem de conhecimento que ensina métodos de descoberta aos outros está a imitar Hermes, o Guia.
Como mediador entre a ordem celestial e a sublunar, Hermes é o responsável por ligar os fins de uma ordem anterior ao início da ordem subsequente, servindo como meio de comunicação em toda a estrutura cósmica. É o intermediário que transmite o conhecimento e a vontade divina até ao nível humano. Por exemplo, é Hermes que transmite a Calipso o decreto de Zeus pelo qual Odisseu deve proceder ao retorno. Da mesma forma, é ele quem recorda a Eneias o imperativo dos Fados: "Se o brilho das altas façanhas nada tem que te inflame e se não empreendes nada com vistas à tua própria glória, vê Ascânio que cresce e as esperanças de teu herdeiro, Iulo, a quem são devidos o reino da Itália e a terra romana" ( Virgílio, Eneida IV ).
Proclo divide as dádivas ou poderes de Hermes em diferentes níveis de realidade:
- Intelectuais: Bens primários e puramente intelectivos.
- Discursivos: Aperfeiçoam o pensamento racional e retórico, persuasivo.
- Purificatórios: Purificam a alma da irracionalidade e moderam os movimentos da imaginação.
- Naturais: Propiciam o entendimento da natureza e do mundo sensível.
- Materiais: Conferem os poderes necessários à atividade comercial. Por isso, é considerado o deus guardião dos lucros, razão pela qual o nome "Hermógenes" (personagem do diálogo *Crátilo*) é interpretado como aquele cujo lucro é "um presente de Hermes".
Em suma, para Proclo, Hermes é a Inteligência comunicativa, o Arauto ou Embaixador dos numes, que traduz as verdades inefáveis das ordens superiores para formas que a alma humana pode investigar, descobrir e compreender.
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