domingo, 6 de setembro de 2026

Hino Órfico a Perséfone

Hino Órfico a Perséfone 

Perséfone, filha do magno Zeus, vem, ó bem-aventurada,
deusa unigênita, recebe com agrado as nossas oferendas;
de Plutão a veneranda esposa, discreta e vivificante,
tu que deténs as portas de Hades sob os abismos da terra,
Vindicadora, de belas tranças, imaculada de Deo a flor, 
das Eumênides és a mãe, ó rainha dos subterrâneos;
Zeus a gerou, a donzela, em união inefável,
Mãe do estrondoso e multiforme Eubuleu.
companheira de jogos das Estações, radiosa e de forma esplendorosa,
toda poderosa, jovem que transbordas em frutos, copiosa,
luminosa e crescente, a única desejada pelos mortais.
Tu, que és primaveril e te alegras com as brisas dos prados,
revelando o teu corpo sagrado nos rebentos verdejantes;
tu, que foste raptada e desposada no tálamo outonal,
és tu somente a vida e a morte para os mortais cansados de sofrer.
Perséfone, a todos sempre nutres
e a todos distribuis a morte.
Ouve, deusa bem-aventurada,
e faz surgir novamente da terra os frutos,
florescendo em paz, sob a suave mão da saúde,
numa vida próspera que nos conduza a uma velhice radiosa,
ao teu domínio, ó altíssima soberana,
e ao reino do poderoso Plutão. 

 

Notas do tradutor


Notas do tradutor

Perséfone enquanto "filha única". Nos "hinos órficos" assim como nos textos da antiguidade, como nota Nina E. Livesey no seu livro The Letters of Paul in their Roman Literary Context, a retórica é um dos seus elementos constitutivos. "Filha única" é claramente uma hipérbole, afinal, Zeus teve outros filhos além dela. Porém, como retórica dirigida à divindade, Perséfone é elevada à posição suprema com relação aos outros deuses. No hino órfico referente a Eros, o nume é referido como "de todos os reinos, de todos que os habitam, quem impõe o curso sois vós, nosso Senhor", ou seja, ele ocupa uma posição superior até mesmo a das Parcas, as deusas do destino, outro exemplo de hipérbole. Assim, o termo não deve ser necessariamente entendido como uma afirmação genealógica de que Perséfone fosse a única filha de Zeus, mas como uma forma de exaltar sua singularidade.

Vindicadora. É Perséfone que realiza o julgamento das almas, aquela que estabelece o destino da alma segundo a justiça. Para Plutarco, no seu livro De Facie 28, ela separa as almas que rumarão para o sol, as almas dos justos, daquelas que regressarão ao mundo sublunar, a dos injustos,  sob ciclo da transmigração das almas. Ou seja, ela não é Adrasteia, que trata da punição dos mortais ainda em vida. Sua função é de outra ordem.

"Filha de Deo". Deo era outra nome pelo qual Deméter era chamada. 

Eubuleu é o porqueiro que teve seus suínos engolidos pela fenda na terra pela qual Orco penetrou com a raptada Perséfone.
Há outra camada interpretativa possível: nas tabuinhas de ouro órficas, ele é chamado de "o de bom conselho". Ele aparece como portador de tocha, papel que sugere condutor de almas na saída do Hades. A associação com a tocha ainda permite uma leitura de Eubuleu como figura de condução no espaço ctônico, embora a identificação estrita com um psicopompo não deva ser tomada como certa.

Crescente. É minha tradução para "cornuda" ou "córnea". Estes cornos são as da lua, em crescente. Ou seja, Perséfone é uma deusa que encontra seu elemento na Lua, como refere Plutarco: ela é soberana do limiar lunar e Deméter, sua mãe, soberana da terra, vide De Genio Socratis (591B). Ou seja, Perséfone vive na fronteira entre o mundo sublunar e o inteligível. Ela separa a psyche do nous, na Lua, e envia este para o Sol ou impera que a alma volte à existência sublunar como pharmakon das suas injustiças.
Por outra, é comum encontrar-se traduções, em português, que são fiéis ao grego, mas soam extramamente mal, por exemplo, traduzir Hera Boōpis (Βοῶπις), como Hera de olhos de vaca. Melhor seria traduzir por Hera de sereno e majestoso olhar - era o que Βοῶπις significava - do que ser literal e ocultar o significado. Lembre-se, são textos gregos e eles davam imensa importância à beleza e à persuassão. Há de se julgar sempre o momento histórico (Kairós) no qual o texto foi produzido e também no qual ele será lido. 

Perséfone como a deusa que dá a vida e distribui a morte: nós, mortais, vimos à vida tal e qual Perséfone enquanto Kore, que se une à sua mãe, Deméter, no Olimpo. E morremos, ou baixamos ao Hades, como Perséfone ao retornar ao reino cimério de Hades/Plutão.

Sobre o final do hino, o pedido de uma velhice radiosa e à descida ao reino de Perséfone e de Plutão se conecta com a crença órfica na imortalidade da alma. Como diz a Petélia:
"Dize: Sou filho da Terra e do Céu estrelado;
mas minha estirpe é celeste — isto vós mesmos sabeis.
Estou seco de sede e pereço: dai-me, depressa,
a água fria que mana do Lago da Memória."
Dito isto, a alma "reinarás entre os demais heróis".
Ou seja, no Hades não há a dissolução da alma, mas sua continuidade; a descida ao domínio de Perséfone é passagem de estado, não aniquilação do ser.


 
 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Tratado da Genitura do Orbe e a Sucessão dos Evos

A origem rude no princípio do ciclo. O primeiro a imperar foi Saturno, do mundo a infância inculta. Os homens, sementes discordes em montão lançadas, viviam em ferocidade bárbara, da Razão destituídos. Não se confunda este estado de rudeza selvagem com a Idade de Ouro, o hórrido engano dos vates, pois aqui a humanidade jazia absorta em ignorância e não em bondade.

A rusticidade primitiva e esquálida baqueia. Inicia-se das almas a pacificação. O Tonante assume o cetro. A ferocidade é posta de parte, a vida humana passa a ser cultivada pela disciplina.

Sob a regência de Mavorte, o nume fero, a humanidade celebra da cidade o surgimento, enfim em sociedade passa a viver. A desumanidade antiga é submetida por uma certa moderação. Surgem os ornamentos das artes e das fabricações. É o tempo em que o Engenho humano estabelece os alicerces da sociedade, aos campos o ferro sulcador dá forma. Marte a culminar sua obra, Roma funda, dá-lhe limites, honra, razão e mandato: submeter os arrogantes e perdoar os submissos, pelo orbe a justiça há de imperar.

Da Sabedoria a beleza, o domínio da Citeréia Celestial floresce. A arte seu brilho alcança. As ações humanas são adornadas pela Prudência. Os patrícios, de Marte e Vênus descendentes, os costumes por eles são formados. Deles vem a retidão. A humanidade governada pelo poder da Providência, que os assinala, caminha, em tudo ordem e beleza há.

Sob o ágil Cilênio, o nobre génio do homem aguça seu poder de invenção ao ponto mais extremo. Mas, ai de nós! A inteligência, privada de uma vida virtuosa, degenera em improbidade. O homem novo no Senado pede justiça, porém desdenha o necessário julgamento. A ordem estremece patrícia, livre de amarras a Cobiça vocifera. A sociedade, sem Penates, sequer Lares, prevalece. Prevalece a audácia, com ela os crimes, os costumes confusos e as maquinações infandas, de mal prenhes. 

Quando a perversidade tudo assombra e a irreligião senhoreia o mundo, do Olimpo o Demiurgo observa o estrago imenso. Para punir o ímpio e curar a chaga indelével,  intervém com o fogo ou com as águas do Dilúvio. O mundo purificado queda. Não é a destruição final, o orbe à sua face antiga face retorna para que o ciclo perene possa, como o divino Platão ensina, recomeçar.

 

Nota do autor/tradutor
Esta é uma adptação resumida do texto de mesmo nome de Julius Firmicus Maternus. O texto fala de recorrência de ciclos, de uma grande apocatastasis. O que o torna único é identificar a "idade do ouro" do período de Saturno como império da irracionalidade e não da felicidade, como é referido por Hesíodo. A humanidade vai caminhando da desordem à ordenação racional para depois, como qualquer coisa que veio a ser, se corromper por sua natureza.

O texto pode soar aristocrático, mas ele só reproduz o padrão de pensamento do período. Não se pode tentar injetar valores contemporâneos no passado sob o risco de  descaracterizá-lo. 

domingo, 19 de julho de 2026

Hino Órfico ao Magno Plutão

 Hino Órfico ao Magno Plutão

Ó Tu, que habitas no profundo Orco, 
Do Averno opaco, o pavoroso assento; 
Aceita, ó Nume, em pio e ledo rosto, 
As preces nossas, Tartáreo Tonante!

Ó grão Plutão, que da extensiva Terra 
As chaves guardas, e o mortal sustentas; 
Dando às humanas figuras a messe, 
Os frutos de ouro, que no seio nutres.

Tua é a terça parte, a estância imensa, 
Dos Deuses trono, dos mortais arrimo; 
Tu, que ao Aqueronte os fins estendes, 
E o trono firmas onde o dia murcha.

Dos entes todos o Fado governas, 
Ó Dite sábio! Tu, que à doce vida 
Da prole de Ceres o fado mudaste; 
E a furto, em carro, para o mudo Antro, 
Levaste a noiva, às Tenárias portas.
Dos atos todos és juiz supremo, 
Onipotente, egrégio, e digno de honra; 
Atende ao Vate em pio siso e mudo, 
E às santas aras, favorável, desce!





Notas do tradutor


O Hino Órfico a Plutão/Hades o identifica como monarca da terça parte do cosmos, a qual divide com Júpiter e Netuno. Para Proclus, no entanto, essa divisão é entendida dentro do esquema da tríade:
1. Permanência (μονή, monḗ)
2. Processão (πρόοδος, próodos)
3. Retorno (ἐπιστροφή, epistrophḗ) 
Para ele, Cronos representa a permanência (monḗ); Reia (Hécate), a processão (próodos); Zeus/Plutão, a atividade demiúrgica pela qual o universo é ordenado e reconduzido às suas causas, realizando o retorno (epistrophḗ).
No Averno, a é julgada e purificada, sendo por sua providência reconduzida às suas causas intelectuais, cujo símbolo é Cronos, no entanto, não de forma direta, mas através de um longo ciclo de reencarnações.

Ele é o Juiz Supremo, o "juiz dos actos todos", avalia a dignidade do participante para determinar o seu lugar no ciclo de retornos e ascensões, no ciclos da transmigração das almas, garantindo que a justiça cósmica (Dike) se cumpra através da compensação e da purificação.

Ele é a garantia de que a Unidade jamais se interrompa, nem mesmo no opaco Averno. Onde o néscio vê a morte, o Hierofante contempla a atividade eterna do retorno à Causa.

É Platão quem assevera que Plutão é um "sofista admirável" pois convence as almas da bondade da esfera avernal. Pode-se muito bem também dizer-se que é ele quem as conduz, por meios da persuasão, ao retorno à existência sublunar. É ele o Arconte do ciclo inesgotável da transmigração das almas.

Cabe notar-se que a existência junto à divindade não é condição necessária à salvação. No mito de Er, é justamente a alma que conviveu junto aos deuses, junto a Plutão, que faz a pior escolha: a de reencarnar como um tirano que comeria os próprios filhos. 

Ora, foi a alma que contemplou a imagem do Bem, o Uno, o mundo divino que optou pela senda do mal e, ao termo da sua vida terrena, será condenado ao Tártaro, a expiar seus crimes.

Quem fez a melhor escolha? Aquele que ouviu o canto das sereis, que segundo Platão entoam suas melodias no Orco, e soube resistir-lhes. Aquele que não foi exposto à imagem do Bem, mas ao sofrimento, ao desafio constante e os superou devido à Métis: Odisseu.

Mesmo junto à divindade, o humano não se afasta do perigo e da dor. É pela métis que ele deve-se conduzir quer no mundo sublunar quer no celestial. Pois ambos esses dois escondem perigos que podem por a perder a felicidade humana.

Porém, nem mesmo a astúcia pode salvar Odisseu do ciclo das reencarnações. É aquele que é agraciado por Prosérpina, Tirésias, que conquista esta vitória sobre o Destino, que sempre confunde o bem e o mal, o último sempre em doses maiores na vida dos mortais. E este será o tema de um hino a ser publicado.
 

sábado, 4 de julho de 2026

Hino a Eros

Hino a Eros 

Eu vos invoco, altíssimo e magnífico, Eros.
As setas vossas, exímio e solerte arqueiro,
o mortal e a divindade, ardentes, submetem.
Dupla vossa santa natureza, no tempo e na eternidade, a soberania.
Céu, terra e mar, os ventos, o Averno e de Telus a prole, 
De todos os reinos, de todos que os habitam,
Quem impõe o curso sois vós, nosso Senhor.
Puro diante de vós, o meu pensamento, augusto nume,
Que impere em mim a vossa glória e de mim afastai o cego ardor.



Nota do tradutor/autor
Esta é uma tradução minha do Hino Órfico nº 58 dedicado a Eros. Não pretendo traduzir literalmente - as LLMs já o fazem com perfeição -, mas dele proceder e retornar, tal qual o fruto que a árvore contempla e dentro de si a traz, como o efeito que à causa volve. Este é mandato do hierofante. 
πρόοδος-ἐπιστροφή. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

A Ira de Juno Termina

A Ira de Juno Termina

 À margem da mádida ribeira, a belíssima ninfa ajusta a sandália ao delicado pé, enquanto o mancebo que a transportou nos braços se afasta pelo cristalino regato do rio Anauros com um dos pés descalço. Ela fita-me com olhos que, de apolíneo fulgor, rutilam como os raios de Febo, e a minha mente logo me dita: Eis um Nume!

— Nomeiam-me Satúrnia, ó ínclito mortal — pronuncia a Deidade com majestoso cenho —; baixo da etérea estância para este vário orbe sublunar novamente inspecionar.

— Que honra a minha, Domina Santíssima! — exclamo eu, absorto em pio espanto —. Concede-me o Fado a elevada mercê de, face a face, contemplar a beleza perene daqueles que para sempre são!.

— Leda me fazes, criatura do tempo — torna a soberba esposa de Jove —. Ah! Se o Pastor do Ida possuíra o teu siso, inda hoje a altiva Ílion, de Príamo glória, sobre os seus muros soberba reinaria!.

— Entendo-vos, dulcíssima Domina — respondo com submissa vênia —. Poucos penetram os arcanos como eu, que sei ter sido o triunfo da Citeréia no certame alheio à honra e ao brio.

— Mortal, explica-te melhor! — insta a Deusa —. Ou a sã Razão te guia, ou a insânia te roubou o juízo!.

— O kestos himas, o cinto de milagrosa sedução que a Citeréia nua ainda vestia, irradiou na mente de Páris um falso e entorpecente engodo. A astúcia e o dolo triunfaram, não a beleza pura. Sem tal ardil, ouso dizer com reverência: a palma do triunfo pertenceria a Vós, Regina altíssima!


— Julgo encontrar um novo Tirésias. Tens de facto a Razão! Que o resultado do concurso  nulificado seja. Vênus não é a mais bela. Minha ira contra os descendentes de Príamo aqui se encerra — anui a Deusa. Ao Olimpo nival agora volvo, onde festejos e néctar me esperam. Tu, no teu elemento e retiro amável deves quedar-te; mas quando Íris, aquela deia que dos mortais a alma do corpo separa, vier visitar-te, ordeno que ela te conduza à minha presença, para que entre os Imortais sejas meu prudente conselheiro.

 

Nota do autor

Isto é uma criação própria sobre o fim da "ira de Juno", peça central da Enéida. Esta pequena fantasia assume um tom quase jurídico, romano, que invalida o julgamento de Páris sobre a beleza das três divindades. Quase como se pedisse a anulação do certame por vício de consentimento do julgador, Páris, uma vez que o réu encontrava-se sob influência de artefato divino destinado a produzir atração irresistível, o kestos himas, Livro XIV da Ilíada, conhecido como Engano de Zeus (Dios Apátē). 

A referência a Íris como aquela que separa a alma do corpo sob o comando de Juno encontra-se na Eneida de Virgílio (Livro IV, 693-695).

A abertura da peça refere-se a Jasão e os Argonautas, quando ele ajuda Juno a atravessar o rio Anauros e perde uma sandália. 

A menção a Tirésias não é gratuita. Ele, um mortal, foi árbitro entre uma disputa entre Júpiter e Juno e cegado por esta ao perder a disputa (Metamorfoses, III). O mortal desta estória ocupa a mesma função de árbitro acerca de um problema divino. E de maneira inversa à punição de Tirésias, é recompensado.

A divinização do mortal, por fim, pode parecer exagerada, porém não o é, de acordo com o pensamento romano. O conceito romano de "gratia" considerava que um benefício recebido - no caso de Juno, o fim do ressentimento que ela carregava há tempos - criava uma obrigação (officium) que só se resolve com gratia proporcional à dignitas de quem a deve, não ao tamanho aparente do serviço. E a dignitas de Juno, sendo a maior depois da de Júpiter, não admite nada aquém do melhor a que ela pode conceder a um mortal: a vida eterna junto aos deuses do Olimpo.


 

Ode a Minerva

Ode a Minerva
 

Ó Minerva ínclita, de Jove mente e prole, 
O fogo sacro no alto engenho acendes;
Ao mundo, que de brio e vida preenches, 
O Vate cego o inviso enfim contempla.

Ó virgem, que impoluta e não domada, 
Do fino siso és nume claro e puro;
 
R
etórica, que o passo não dispersa, 
Aos sãos princípios o mortal converte.

Se do deus de Leneu o estro zelas, 
O Vate de Quio, em ti absorto e fixo,
Do siso a dispersão lhe preservas, 
Salvo do mundo e dos vulgares nadas.

Ó Nume excelso! Ó luz da grã solércia, 
Que os lumes cerras para o brilho falso,
Dá-nos o voo, a nítida visão, 
No império teu, de divinal luz pleno.

 

Nota do autor

O Hino a Minerva apresenta-nos ela como a personificação da Inteligência Divina, a deusa que impera o regresso das almas do mundo sublunar ao inteligível.

Ela é a "mente e prole" de Jove, a "Inteligência de Júpiter", sujeitando a "Necessidade" à unificação e à ordenação racional. É aquela que irradia o "fogo sacro" da submissão do múltiplo ao Uno.

Ela é a "virgem e não domada", expressão metafórica da sua recusa em ser complacente com a ordem da matéria.

Quanto aos discursos, cito literalmente o Livro XIII da Odisséia quando Minerva alegremente interpela Ulisses: "Falaz e simulado, teria de ser quem te vencesse em toda espécie de enganos, mesmo que fosse um deus a enfrentar-te. [...] Mas vamos, não mais disso falemos, ambos da solércia somos exímios — pois tu és de longe o melhor dos mortais no ardil e nos discursos, e eu, entre todos os deuses, assinalada sou por métis e astúcia."

"Aos princípios o mortal converte" indica que ela é o princípio da conversão, o retorno do efeito à causa, a volta da alma ao mundo dos deuses.

A referência ao deus de Leneu, Dionísio, lembra-nos que foi Minerva quem lhe salvou o coração, quando aquele foi despedaçado pelos Titã, e o levou a Apolo, que lhe operou a ressurreição.

O "Vate de Quio" remete-nos a Homero, o poeta cego, que sob a luz de Apolo e Minerva podem contemplar o reino do inteligível, o domínio das formas e expressá-lo aos mortais através de metáforas e estórias.

O pedido final para "cerrar os lumes para o brilho falso" reflete a necessidade da alma de contemplar a verdade dessas formas e cerrar os olhos aos enganos do mundo sublunar, governados pela Causa Errante da Necessidade. No caso especial de Minerva, seus atos são guiados por Métis, princípio do qual descende. É ela quem acompanha e protege Ulisses durante seu retorno, o homem designado por Homero como polymetis, de inúmeras astúcias. Ou seja, a existência no mundo sublunar é marcada pela convivência com o perigoso e o nefasto, e estes não devem ser meramente evitados, mas combatidos pela inteligência que advém da deusa.Enfim, ela é a deusa da phronésis – a inteligência que sabe o que deve ser feito no momento certo para o bem individual e coletivo. 

O poema termina com o pedido: "dá-nos o voo, a nítida visão", que pode ser interpretado como o pedido pela recuperação da "natureza alada" da alma, para que ela possa voltar à esfera divina da qual é proveniente.

Em suma, o hino celebra Minerva como a Potência Guardiã e Redentora que, através da sabedoria, da ordem e da Métis, resgata o humano da dispersão do baixo mundo e o reconduz à unidade divina.

Recomendo fortemente a leitura do livro de Proclus "On Plato Cratylus", tradução de Brian Duvick, editora Bloomsbury, 2007, para uma compreensão aprofundada dos princípios hermenêuticos do grande filósofo neoplatônico e que me guiaram na elaboração da interpretação desta ode a Minerva.

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Ode a Ulisses e Métis

Canto o Grego astuto, não por braço e ferro, 
Mas pelo agudo, d’alma, invicto engenho; 
Ante a turba, que em dúvida se abisma, 
A máscara veste, falto d'alma o ente,
Mas, solta a voz, as mentes maravilha, 
Mágico d’expressão, dos peitos dono. 
Triunfador do pélago e do fado, 
Pela destreza em vez da força imensa.
De Ílion os muros, que o Gradivo guarda, 
Cederam do cavalo ao cego dolo, 
Ardil que em paz o estrago mudo oculta, 
Vencendo a lide onde o valor falhara.
Mestre dos recursos contra o abismo, 
No antro do Ciclope a mente activa 
Finge o escape sob a lanhuda prole, 
Rindo da sanha que o gigante cega.
A casa volve, e em mísero mendigo 
Se oculta, e os rivais observa e estuda; 
Qual polvo que às penhas se acomoda, 
Dos disfarces sem conta o herói se vale.
É laço vivo que o mundo encadeia, 
Pela Razão regendo o Acaso vago. 
Preclara e augusta Métis, Nume santo, 
Nesta era de Ciclopes e tiranos,
Aos Penates pátrios, Deusa, me guia, 
Este triste devoto assim lhe suplica
 

 

Nota do autor:

Uso Métis e não Minerva ou Atena por julgar que a primeira encerra o princípio da inteligência prática, da astúcia e dos disfarces. É ela quem fabrica a poção que fez Saturno dormir e permitiu a libertação dos seus filhos. É ela quem impera o tempo como imagem da eternidade, como propõe Platão no Timeus. Pois a poção de Métis liberta de Saturno os filhos: o ciclo do tempo abre-se para o cosmos, os deuses se alinham nas suas esferas pela intervenção divina da deusa. A processão e o retorno no devir se iniciam, combinando identidade e diferença. Como o efeito opera segundo a Causa, Atena faz um movimento análogo liberando Ulisses da permanência na ilha de Ogígia e lhe possibilitando o retorno ao mundo da gênese.


Métis não se manifesta apenas no tempo, no vir a ser, é antes a Suma Mediadora entre o Mesmo e o Outro. Neste sentido, tanto Ulisses quanto Minerva dela participam, não lhe estão no mesmo patamar ontológico. Notem: Ulisses frequentemente se disfarça no curso da Odisseia, isto não é atributo de Minerva, mas de Métis. Ou seja, a associação já é clara no texto. Além do que, deve-se ter em linha de conta, que um dos epitetos de Ulisses era "polymetis", de múltiplas astúcias.