Ode a Minerva
Ó Minerva ínclita, de Jove mente e prole,
O fogo sacro no alto engenho acendes;
Ao mundo, que de brio e vida preenches,
O Vate cego o inviso enfim contempla.
Ó virgem, que impoluta e não domada,
Do fino siso és nume claro e puro;
Retórica, que o passo não dispersa,
Aos sãos princípios o mortal converte.
Se do deus de Leneu o estro zelas,
O Vate de Quio, em ti absorto e fixo,
Do siso a dispersão lhe preservas,
Salvo do mundo e dos vulgares nadas.
Ó Nume excelso! Ó luz da grã solércia,
Que os lumes cerras para o brilho falso,
Dá-nos o voo, a nítida visão,
No império teu, de divinal luz pleno.
Nota do autor
O Hino a Minerva apresenta-nos ela como a personificação da
Inteligência Divina, a deusa que impera o regresso das almas do
mundo sublunar ao inteligível.
Ela é a "mente
e prole" de Jove, a "Inteligência de Júpiter",
sujeitando a "Necessidade" à unificação e à ordenação
racional. É aquela que irradia o "fogo sacro" da submissão
do múltiplo ao Uno.
Ela é a "virgem
e não domada", expressão metafórica da sua recusa em ser
complacente com a ordem da matéria.
Quanto aos discursos, cito literalmente o Livro XIII da Odisséia
quando Minerva alegremente interpela Ulisses: "Falaz e simulado, teria de ser quem
te vencesse em toda espécie de enganos, mesmo que fosse um deus a
enfrentar-te. [...] Mas vamos, não mais disso falemos, ambos da solércia
somos exímios — pois tu és de longe o melhor dos mortais no ardil e nos
discursos, e eu, entre todos os deuses, assinalada sou por métis e
astúcia."
"Aos princípios
o mortal converte" indica que ela é o princípio da conversão,
o retorno do efeito à causa, a volta da alma ao mundo dos deuses.
A referência ao
deus de Leneu, Dionísio, lembra-nos que foi Minerva quem lhe salvou
o coração, quando aquele foi despedaçado pelos Titã, e o levou a
Apolo, que lhe operou a ressurreição.
O "Vate de
Quio" remete-nos a Homero, o poeta cego, que sob a luz de Apolo
e Minerva podem contemplar o reino do inteligível, o domínio das
formas e expressá-lo aos mortais através de metáforas e estórias.
O pedido final para
"cerrar os lumes para o brilho falso" reflete a necessidade
da alma de contemplar a verdade dessas formas e cerrar os olhos aos
enganos do mundo sublunar, governados pela Causa Errante da
Necessidade. No caso especial de Minerva, seus atos são guiados por
Métis, princípio do qual descende. É ela quem acompanha e protege
Ulisses durante seu retorno, o homem designado por Homero como
polymetis, de inúmeras astúcias. Ou seja, a existência no mundo
sublunar é marcada pela convivência com o perigoso e o nefasto, e
estes não devem ser meramente evitados, mas combatidos pela
inteligência que advém da deusa.Enfim, ela é a deusa da phronésis – a inteligência que sabe o que deve ser feito no momento certo para o bem individual e coletivo.
O poema termina com
o pedido: "dá-nos o voo, a nítida visão", que pode ser
interpretado como o pedido pela recuperação da "natureza
alada" da alma, para que ela possa voltar à esfera divina da
qual é proveniente.
Em suma, o hino
celebra Minerva como a Potência Guardiã e Redentora que, através
da sabedoria, da ordem e da Métis, resgata o humano da dispersão
do baixo mundo e o reconduz à unidade divina.
Recomendo fortemente a leitura do livro de Proclus "On Plato Cratylus", tradução de Brian Duvick, editora Bloomsbury, 2007, para uma compreensão aprofundada dos princípios hermenêuticos do grande filósofo neoplatônico e que me guiaram na elaboração da interpretação desta ode a Minerva.