A origem rude no princípio do ciclo. O primeiro a imperar foi Saturno, do mundo a infância inculta. Os homens, sementes discordes em montão lançadas, viviam em ferocidade bárbara, da Razão destituídos. Não se confunda este estado de rudeza selvagem com a Idade de Ouro, o hórrido engano dos vates, pois aqui a humanidade jazia absorta em ignorância e não em bondade.
A rusticidade primitiva e esquálida baqueia. Inicia-se das almas a pacificação. O Tonante assume o cetro. A ferocidade é posta de parte, a vida humana passa a ser cultivada pela disciplina.
Sob a regência de Mavorte, o nume fero, a humanidade celebra da cidade o surgimento, enfim em sociedade passa a viver. A desumanidade antiga é submetida por uma certa moderação. Surgem os ornamentos das artes e das fabricações. É o tempo em que o Engenho humano estabelece os alicerces da sociedade, aos campos o ferro sulcador dá forma. Marte a culminar sua obra, Roma funda, dá-lhe limites, honra, razão e mandato: submeter os arrogantes e perdoar os submissos, pelo orbe a justiça há de imperar.
Da Sabedoria a beleza, o domínio da Citeréia Celestial floresce. A arte seu brilho alcança. As ações humanas são adornadas pela Prudência. Os patrícios, de Marte e Vênus descendentes, os costumes por eles são formados. Deles vem a retidão através da aprendizagem. A humanidade caminha governada pelo poder da Providência divina que os assinala, em tudo ordem e beleza.
Sob o ágil Cilênio, o nobre génio do homem aguça seu poder de invenção ao ponto mais extremo. Mas, ai de nós! A inteligência, privada de uma vida virtuosa, degenera em improbidade. O homem novo no Senado pede justiça, porém desdenha o necessário julgamento. A ordem estremece patrícia, livre de amarras a Cobiça vocifera. A sociedade, sem Penates, sequer Lares, prevalece. Prevalece a audácia, com ela os crimes, os costumes confusos e as maquinações infandas, repletas de mal.
Quando a perversidade tudo assombra e a irreligião senhoreia o mundo, do Olimpo o Demiurgo observa o estrago imenso. Para punir o ímpio e curar a chaga corrupta, ele intervém com o fogo ou com as águas do Dilúvio. O mundo purificado queda. Não é a destruição final, o orbe à sua face antiga retorna para que o ciclo perene possa, como o divino Platão ensina, recomeçar.
Nota do autor/tradutor
Esta é uma adptação resumida do texto de mesmo nome de Julius Firmicus Maternus. O texto fala de recorrência de ciclos, de uma grande apocatastasis. O que o torna único é identificar a "idade do ouro" do período de Saturno como império da irracionalidade e não da felicidade, como é referido por Hesíodo. A humanidade vai caminhando da desordem à ordenação racional para depois, como qualquer coisa que veio a ser, se corromper por sua natureza.
O texto pode soar aristocrático, mas ele só reproduz o padrão de pensamento do período. Não se pode tentar injetar valores contemporâneos no passado sob o risco de descaracterizá-lo.