terça-feira, 16 de junho de 2026

Ode a Minerva

Ode a Minerva
 

Ó Minerva ínclita, de Jove mente e prole, 
O fogo sacro no alto engenho acendes;
Ao mundo, que de brio e vida preenches, 
O Vate cego o inviso enfim contempla.

Tu, virgem impoluta e não domada, 
Do plectro unindo a melodia nítida;
Retórica que o passo não dispersa, 
Mas aos princípios o mortal converte.

Se do deus de Leneu o estro zelas, 
O Vate de Quio, em ti absorto e fixo,
Do siso a dispersão lhe preservas, 
Salvo do mundo e dos vulgares nadas.

Ó Nume excelso! Ó luz da grã solércia, 
Que os lumes cerras para o brilho falso,
Dá-nos o voo, a nítida visão, 
No império teu, de divinal luz pleno.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Ode a Ulisses e Métis

Canto o Grego astuto, não por braço e ferro, 
Mas pelo agudo, d’alma, invicto engenho; 
Ante a turba, que em dúvida se abisma, 
A máscara veste, falto d'alma o ente,
Mas, solta a voz, as mentes maravilha, 
Mágico d’expressão, dos peitos dono. 
Triunfador do pélago e do fado, 
Pela destreza em vez da força imensa.
De Ílion os muros, que o Gradivo guarda, 
Cederam do cavalo ao cego dolo, 
Ardil que em paz o estrago mudo oculta, 
Vencendo a lide onde o valor falhara.
Mestre dos recursos contra o abismo, 
No antro do Ciclope a mente activa 
Finge o escape sob a lanhuda prole, 
Rindo da sanha que o gigante cega.
A casa volve, e em mísero mendigo 
Se oculta, e os rivais observa e estuda; 
Qual polvo que às penhas se acomoda, 
Dos disfarces sem conta o herói se vale.
É laço vivo que o mundo encadeia, 
Pela Razão regendo o Acaso vago. 
Preclara e augusta Métis, Nume santo, 
Nesta era de Ciclopes e tiranos,
Aos Penates pátrios, Deusa, me guia, 
Este triste devoto assim lhe suplica
 

 

Nota do autor:

Uso Métis e não Minerva ou Atena por julgar que a primeira encerra o princípio da inteligência prática, da astúcia e dos disfarces. É ela quem fabrica a poção que fez Saturno dormir e permitiu a libertação dos seus filhos. É ela quem impera o tempo como imagem da eternidade, como propõe Platão no Timeus. Pois a poção de Métis liberta de Saturno os filhos: o ciclo do tempo abre-se para o cosmos, os deuses se alinham nas suas esferas pela intervenção divina da deusa. A processão e o retorno no devir se iniciam, combinando identidade e diferença. Como o efeito opera segundo a Causa, Atena faz um movimento análogo liberando Ulisses da permanência na ilha de Ogígia e lhe possibilitando o retorno ao mundo da gênese.


Métis não se manifesta apenas no tempo, no vir a ser, é antes a Suma Mediadora entre o Mesmo e o Outro. Neste sentido, tanto Ulisses quanto Minerva dela participam, não lhe estão no mesmo patamar ontológico. Notem: Ulisses frequentemente se disfarça no curso da Odisseia, isto não é atributo de Minerva, mas de Métis. Ou seja, a associação já é clara no texto. Além do que, deve-se ter em linha de conta, que um dos epitetos de Ulisses era "polymetis", de múltiplas astúcias.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

E Cura criou o homem

Cruzando o rio, a Cura o lodo avista, 
Absorta a massa entre as mãos levanta; 
Do barro o homem finge, e a Jove implora 
O espírito vital, que o Nume entrega.
Querendo a Cura o nome seu impor-lhe, 
Jove o veda, e o seu clama por direito. 
Tellus então se ergue, e o nome pede, 
Pois seu corpo ao boneco ela cedera.
Satúrnio, o juiz, a lide assim decide: 
“Tu, Jove, a alma; a Tellus, o corpo hajas; 
Pois que a Cura o formou, que a Cura o reja 
Enquanto o Fado a vida não lhe termine. 
Do nome em dúvida, Homem se proclame, 
Pois que do Humo a substância se tira.

Hyginus - Fabulae, 220


sexta-feira, 5 de junho de 2026

Hino Homérico a Hércules

Cantarei Hércules, de Jove a ínclita prole, 
Herói que entre os mortais poderoso se sublima; 
Em Tebas, das mil danças, de Alcmena veio à luz, 
Quando o Satúrnio das nuvens a envolvera. 
Vagou outrora por terrenos vastos, 
Por mares, sob o império do rei Euristeu; 
Muitos males sofreu, graves trabalhos, 
Mas hoje no Olimpo nival reside, 
Tendo Hebe, de fulgente olhar, por esposa. 
Salve, ó de Jove progênie ditosa,
Dá-me faustos Fados!  

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Hino Órfico às Eumenides

Ouvi-me, ó Numes graves, celebrados, 
Tisífone, Alecto, e vós, Megera; 
Vós, que no Orco, em grutas escondidas, 
Habitais junto ao Estígio, lento e horrendo. 
Severas contra o crime e o erro humano, 
Do Fado executoras, ó Rainhas, 
Que a vida extinguis com infausto brilho.
Sem vós não brilha o Sol, nem luz a Lua, 
Nem siso, ou brio, ou flor da mocidade 
Podem do peito afugentar as mágoas; 
Pois da Justiça o olhar, que tudo alcança, 
Vigia as hordas de terrestres seres. 
Ó Parcas de mil formas, que entre as tranças 
As ríspidas serpes enroscais, 
Propícias sede, ó Numes, a este mortal. 


Nota do tradutor

Pode-se estranhar a ausência de paternidade das Fúrias. Pois Taylor a declara na sua tradução:
Holy and pure, from Jove terrestrial [Zeus Khthonios] born and Proserpine Phersephone], whom lovely locks adorn.

Porém, essas linhas não existem no original em grego. Logo, na minha tradução estão ausentes. 

Um lembrete: as Fúrias não punem o erro/pecado individual, mas também o hereditário, o míasma ( a mácula ou contaminação espiritual) que se transmite pelo sangue e infesta a linhagem (génos). A culpa é ancestral e há de ser expiada. 

Pode-se estranhar chamar as Fúrias de "Parcas de mil formas". Mas isto está presente no original em grego: ἀλλά, θεαὶ Μοῖραι, ὀφιοπλόκαμοι, πολύμορφοι. Como dou preferência às designações latinas dos numes, preferi Parcas para traduzir Μοῖραι. 



domingo, 24 de maio de 2026

Hino a Dionísio Areopagita

Celebro aquele, entre os preclaros filósofos,
que, tal qual Odisseu, a Verdade defendeu. 
Quando a mão insolente e profana da tirania
buscava em trevas eternas nos calar, 
De engenho astuto e espírito elevado,
em livros e cartas a antiga Sabedoria verteu. 
Como vetusto fiel do novo culto, disfarçado se apresentou
e, com arte, soube os tiranos enganar. 
Assim sobreviveu, entre sombras e ignorância, a luz
de Plotino e Proclo, a ontologia e a teurgia platônica. 
Um outro credo, fascinado, o divino fundamento copiou:
a Causa Primeira, supraessencial, mais que boa, nele floresceu. 
Intercedeu então Ateneia por nós,
Glória e louvor de Zeus Pai à filha!
E Pletho, o filósofo, veio novamente ensinar. 
Do Norte da Itália ressurgiu o pio ardor,
e o forte Malatesta um novo templo ergueu. 
De toda a Europa acorreram os sábios,
fascinados, aos antigos textos estudar. 
Ateneia, senhora do segundo Cavalo de Troia,
triunfou — e a Ciência, enfim, renasceu!

terça-feira, 19 de maio de 2026

Hino a Marte - Uma Interpretação Teúrgica

Hino a Marte
 

Oh adorável Marte!
Deus poderoso e fero, da justiça escudo e gládio,
quando a dissídia, face do vetusto caos,
pela ambição comandada, à ordem e ao bem ameaça,
por mandato de Juno, aos arrogantes pões fim.
  
 
Da deusa do amor és o consorte, da vida e da família,
da santa união dos esponsais,
dos seus filhos, santo guerreiro e protetor.
 
 
Deus dos desditos, aos desvalidos que Roma fundaram,
lhes insuflaste honra, coragem e razão,
edificaram então Imortal império, em teu louvor.

Ilumina-me, ó altíssimo Marte,
e que seja em mim o teu ministério também celebrado!
 
 
Comentário do autor 
 

O Hino a Marte celebra-o não como agente cego da destruição e da guerra, como agente da conquista e do morticínio, mas como divindade  interpretada no contexto particularmente platônico e teúrgico. Marte é uma entidade  supralunar, marcada pelo movimento de permanência, processão e retorno com relação ao Sol, a imagem do Bem. Participando da ordenação cósmica que intercede na esfera sublunar para dar-lhe medida e forma, e não como causa motriz do seu oposto.

Marte é um nume civilizador: atua contra o caos gerado pela divisão quer na alma quer na cidade, sob mandato de Juno, ela que é a deusa da ordem conjugal e cívica — o que os neoplatônicos chamariam de força demiúrgica subordinada à preservação das formas já geradas.

A segunda estrofe introduz a união entre Marte e Vénus, “deusa do amor”, como fundamento da vida, da família e dos esponsais. Aqui emerge um dos grandes temas do neoplatonismo: a complementaridade entre separação e união. Vénus unifica; Marte diferencia. Sem Vénus, o cosmos dissolver-se-ia em conflito incessante; sem Marte, toda distinção desapareceria numa unidade informe. A harmonia do universo depende precisamente da tensão equilibrada entre estes dois poderes. Não é por outra razão que a Harmonia é a filha do casal. Assim, a humanidade, a família, pode proceder no mundo da gênese e construir a civilização, que é, por si, o equilíbrio, a Harmonia, entre as diversidade individuais.

Marte também é o deus dos desvalidos, dos derrotados, dos sem pátria, família ou esperança. Foi um grupo assim que reunido foi pelo filho do deus, Rômulo, e fundou Roma. Não lhes insufla apenas a capacidade guerreira, mas a persistência face a adversidade e à derrota. Roma cresce quando a dificuldade parece insuperável.

Por exemplo,  Aníbal passou quinze anos no território italiano. Venceu batalhas que deveriam ter dissolvido Roma,
carnificinas sem paralelo. E Roma não negociou. Fez o que nenhuma potência teria feito: recrutou mais, reformou táticas, e triunfou.

Lívio registra o momento depois de Canas com uma estranheza quase mística: o Senado proibiu o luto público. As mães tinham três dias para chorar os filhos, depois deveriam voltar à vida normal. Não era crueldade, era a disciplina a ordenar a sociedade. Roma não podia se permitir desmoronar.

E Aníbal entendeu tarde demais que estava diante de algo que não reconhecia. Ele pensava em termos de coalizões — esperava que os aliados itálicos abandonassem Roma após Canas. Alguns abandonaram. A maioria ficou. Porque Roma havia construído algo que não era apenas dominação: era uma identidade compartilhada do esforço. Mais tarde, Cartago caiu sob a inteligência tática das legiões. O Mediterrâneo tornava-se romano.

Marte lhes deu a ratio, a razão, a disciplina e a perseverança na desdita. Foram os descendentes daqueles desvalidos que procuraram o pitagórico Numa para torná-lo rei de Roma e instituir a ordem civil, dar-lhes deuses, seus cultos e leis justas à cidade.
 
Marte é a potência que impede a queda do ser na indistinção. Ele combate o caos exterior e interior; preserva as formas contra a corrupção; protege a cidade, a família e a alma; inspira coragem, mas também razão; separa para que a unidade verdadeira seja possível. Sua guerra não é a do ódio, mas a da ordem contra a dissolução. É também a guerra nossa, interior, no sentido da nossa autossuperação através da adversidade, através das frustrações e derrotas.

Como teurgia, Marte não opera a nosso favor alterando por prodígios ou milagres as condições externas, mas tornam nossa alma receptáculo das suas virtudes: honra, coragem e razão.