Canto o Grego astuto, não por braço e ferro,
Mas pelo agudo, d’alma, invicto engenho;
Ante a turba, que em dúvida se abisma,
A máscara veste, falto d'alma o ente,
Mas, solta a voz, as mentes maravilha,
Mágico d’expressão, dos peitos dono.
Triunfador do pélago e do fado,
Pela destreza em vez da força imensa.
De Ílion os muros, que o Gradivo guarda,
Cederam do cavalo ao cego dolo,
Ardil que em paz o estrago mudo oculta,
Vencendo a lide onde o valor falhara.
Mestre dos recursos contra o abismo,
No antro do Ciclope a mente activa
Finge o escape sob a lanhuda prole,
Rindo da sanha que o gigante cega.
A casa volve, e em mísero mendigo
Se oculta, e os rivais observa e estuda;
Qual polvo que às penhas se acomoda,
Dos disfarces sem conta o herói se vale.
É laço vivo que o mundo encadeia,
Pela Razão regendo o Acaso vago.
Preclara e augusta Métis, Nume santo,
Nesta era de Ciclopes e tiranos,
Aos Penates pátrios, Deusa, me guia,
Este triste devoto assim lhe suplica
Nota do autor:
Uso Métis e não Minerva ou Atena por julgar que a primeira encerra o princípio da inteligência prática, da astúcia e dos disfarces. É ela quem fabrica a poção que fez Saturno dormir e permitiu a libertação dos seus filhos. É ela quem impera o tempo como imagem da eternidade, como propõe Platão no Timeus. Pois a poção de Métis liberta de Saturno os filhos: o ciclo do tempo abre-se para o cosmos, os deuses se alinham nas suas esferas pela intervenção divina da deusa. A processão e o retorno no devir se iniciam, combinando identidade e diferença.
Métis não se manifesta apenas no tempo, no vir a ser, é antes a Suma Mediadora entre o Mesmo e o Outro. Neste sentido, tanto Ulisses quanto Minerva dela participam, não lhe estão no mesmo patamar ontológico. Notem: Ulisses frequentemente se disfarça no curso da Odisseia, isto não é atributo de Minerva, mas de Métis. Ou seja, a associação já é clara no texto. Além do que, deve-se ter em linha de conta, que um dos epitetos de Ulisses era "polymetis", de múltiplas astúcias.