O prudente e facundo Mercúrio, sútil e poderoso, as almas conduz ao caliginoso Averno de amplos portões. O prado coberto de asfódelos de umas o destino, de outras o hórrido e cruento Tártaro. Cena terrível de se descrever!
Na silente noite, Érebo já vai na sua quadriga a meio do estrelado polo; cá embaixo, pela espessura da mata, vejo aquela que as estações confunde a variedade, que transforma os mais sábios varões em torpes brutos, seu sorriso me confunde, mas dela conheço os artifícios. "A procissão avernal pela noite vai, os manes desditos pela volta à vida imploram, logo o retorno terão! Pelo Orco, o estígio monarca, o perfeito e lastimoso sofista, todos persuadidos que a vida no esquema da matéria sumo bem é!"
Todos eles a Janus seguem, o antigo Caos grego, do umbral das eras o venerando regente. Acima dele as estígias Fúrias revoam, aspérrimas algozes do delito e da insolência.
"Circe, explica-me o que meus olhos veem, a turba do ínfero mundo a mãe Terra visitando. Sentido nisso para mim não há".
"Reinos três, trina monarquia. Terra porém é bem comum. O dia a Febo pertence, Jové olímpico império tem. Quando a incerta Diana no cerúleo Aventino caminha, o Averno a sua vez tem".
"É do consorte da belíssima e sábia Prosérpina o engodo, a convencer a esta instância voltar. Veja lá Agamenon, nova Tróia e obedientes exércitos na mente já cogita conquistar e comandar. Helena, outro Páris encontrar, Cícero sua palavra ressoando pelo senado o desejo lhe incita. Em ardis o Orco supera o grego por Minerva protegido. Assim, o ciclo nunca termina. É assim que o cosmo se orienta, permanência a esta esfera não cabe. Veja lá como Eneias se horrorizava, que triste desejo de vida é este? se perguntava. Mas seu pai, por Orco inspirado, disse-lhe que a glória eterna o esperava, invencível cidade na próxima jornada habitaria. Mas só escombros e desolação, sombra fanada do passado, dos troianos o príncipe encontrou".
"Sensatez e clemência, feiticeira — virtudes que o seu nome não carrega, é o que falam, mas noto que em muito errados são estes juízos", digo.
"Mortais nenhuns me entendem a intenção. Transformo ferozes criaturas, guerreiros habituados ao morticínio, ao saque e ao aprisionamento e venda dos seus iguais em pacíficos animais que contra os seus não se voltam, que nem no gládio ou no escudo são exímios. Por isso, de mim nada tema. Se meus encantos tem poder, é porque da santa e alta inteligência eles provém. Se um dia confuso e em perigo estiver, a mim me invoca que não tardo a socorrê-lo”.