terça-feira, 4 de agosto de 2026

Tratado da Genitura do Orbe e a Sucessão dos Evos

A origem rude no princípio do ciclo. O primeiro a imperar foi Saturno, do mundo a infância inculta. Os homens, sementes discordes em montão lançadas, viviam em ferocidade bárbara, da Razão destituídos. Não se confunda este estado de rudeza selvagem com a Idade de Ouro, o hórrido engano dos vates, pois aqui a humanidade jazia absorta em ignorância e não em bondade.

A rusticidade primitiva e esquálida baqueia. Inicia-se das almas a pacificação. O Tonante assume o cetro. A ferocidade é posta de parte, a vida humana passa a ser cultivada pela disciplina.

Sob a regência de Mavorte, o nume fero, a humanidade celebra da cidade o surgimento, enfim em sociedade passa a viver. A desumanidade antiga é submetida por uma certa moderação. Surgem os ornamentos das artes e das fabricações. É o tempo em que o Engenho humano estabelece os alicerces da sociedade, aos campos o ferro sulcador dá forma. Marte a culminar sua obra, Roma funda, dá-lhe limites, honra, razão e mandato: submeter os arrogantes e perdoar os submissos, pelo orbe a justiça há de imperar.

Da Sabedoria a beleza, o domínio da Citeréia Celestial floresce. A arte seu brilho alcança. As ações humanas são adornadas pela Prudência. Os patrícios, de Marte e Vênus descendentes, os costumes por eles são formados. Deles vem a retidão através da aprendizagem. A humanidade caminha governada pelo poder da Providência divina que os assinala, em tudo ordem e beleza. 

Sob o ágil Cilênio, o nobre génio do homem aguça seu poder de invenção ao ponto mais extremo. Mas, ai de nós! A inteligência, privada de uma vida virtuosa, degenera em improbidade. O homem novo no Senado pede justiça, porém desdenha o necessário julgamento. A ordem estremece patrícia, livre de amarras a Cobiça vocifera. A sociedade, sem Penates, sequer Lares, prevalece. Prevalece a audácia, com ela os crimes, os costumes confusos e as maquinações infandas, repletas de mal. 

Quando a perversidade tudo assombra e a irreligião senhoreia o mundo, do Olimpo o Demiurgo observa o estrago imenso. Para punir o ímpio e curar a chaga corrupta, ele intervém com o fogo ou com as águas do Dilúvio. O mundo purificado queda. Não é a destruição final, o orbe à sua face antiga retorna para que o ciclo perene possa, como o divino Platão ensina, recomeçar.

 

Nota do autor/tradutor
Esta é uma adptação resumida do texto de mesmo nome de Julius Firmicus Maternus. O texto fala de recorrência de ciclos, de uma grande apocatastasis. O que o torna único é identificar a "idade do ouro" do período de Saturno como império da irracionalidade e não da felicidade, como é referido por Hesíodo. A humanidade vai caminhando da desordem à ordenação racional para depois, como qualquer coisa que veio a ser, se corromper por sua natureza.

O texto pode soar aristocrático, mas ele só reproduz o padrão de pensamento do período. Não se pode tentar injetar valores contemporâneos no passado sob o risco de  descaracterizá-lo. 

domingo, 19 de julho de 2026

Hino Órfico ao Magno Plutão

 Hino Órfico ao Magno Plutão

Ó Tu, que habitas no profundo Orco, 
Do Averno opaco o pavoroso assento; 
Aceita, ó Nume, em pio e ledo rosto, 
As preces nossas, Tartáreo Tonante!

Ó grão Plutão, que da extensiva Terra 
As chaves guardas, e o mortal sustentas; 
Dando às humanas figuras a messe, 
Os frutos de ouro, que no seio nutres.

Tua é a terça parte, a estância imensa, 
Dos Deuses trono, dos mortais arrimo; 
Tu, que ao Aqueronte os fins estendes, 
E o trono firmas onde o dia murcha.

Dos entes todos o Fado governas, 
Ó Dite sábio! Tu, que à doce vida 
Da prole de Ceres o fado mudaste; 
E a furto, em carro, para o mudo Antro, 
Levaste a noiva, às Tenárias portas.
Dos atos todos és juiz supremo, 
Onipotente, egrégio, e digno de honra; 
Atende ao Vate em pio siso e mudo, 
E às santas aras, favorável, desce!





Notas do tradutor


O Hino Órfico a Plutão/Hades o identifica como monarca da terça parte do cosmos, a qual divide com Júpiter e Netuno. Para Proclus, no entanto, essa divisão é entendida dentro do esquema da tríade:
1. Permanência (μονή, monḗ)
2. Processão (πρόοδος, próodos)
3. Retorno (ἐπιστροφή, epistrophḗ) 
Para ele, Cronos representa a permanência (monḗ); Reia (Hécate), a processão (próodos); Zeus/Plutão, a atividade demiúrgica pela qual o universo é ordenado e reconduzido às suas causas, realizando o retorno (epistrophḗ).
No Averno, a é julgada e purificada, sendo por sua providência reconduzida às suas causas intelectuais, cujo símbolo é Cronos, no entanto, não de forma direta, mas através de um longo ciclo de reencarnações.

Ele é o Juiz Supremo, o "juiz dos actos todos", avalia a dignidade do participante para determinar o seu lugar no ciclo de retornos e ascensões, no ciclos da transmigração das almas, garantindo que a justiça cósmica (Dike) se cumpra através da compensação e da purificação.

Ele é a garantia de que a Unidade jamais se interrompa, nem mesmo no opaco Averno. Onde o néscio vê a morte, o Hierofante contempla a atividade eterna do retorno à Causa.

É Platão quem assevera que Plutão é um "sofista admirável" pois convence as almas da bondade da esfera avernal. Pode-se muito bem também dizer-se que é ele quem as conduz, por meios da persuasão, ao retorno à existência sublunar. É ele o Arconte do ciclo inesgotável da transmigração das almas.

Cabe notar-se que a existência junto à divindade não é condição necessária à salvação. No mito de Er, é justamente a alma que conviveu junto aos deuses, junto a Plutão, que faz a pior escolha: a de reencarnar como um tirano que comeria os próprios filhos. 

Ora, foi a alma que contemplou a imagem do Bem, o Uno, o mundo divino que optou pela senda do mal e, ao termo da sua vida terrena, será condenado ao Tártaro, a expiar seus crimes.

Quem fez a melhor escolha? Aquele que ouviu o canto das sereis, que segundo Platão entoam suas melodias no Orco, e soube resistir-lhes. Aquele que não foi exposto à imagem do Bem, mas ao sofrimento, ao desafio constante e os superou devido à Métis: Odisseu.

Mesmo junto à divindade, o humano não se afasta do perigo e da dor. É pela métis que ele deve-se conduzir quer no mundo sublunar quer no celestial. Pois ambos esses dois escondem perigos que podem por a perder a felicidade humana.

Porém, nem mesmo a astúcia pode salvar Odisseu do ciclo das reencarnações. É aquele que é agraciado por Prosérpina, Tirésias, que conquista esta vitória sobre o Destino, que sempre confunde o bem e o mal, sempre em doses maiores, na vida dos mortais. E este será o tema de um hino a ser publicado.
 

sábado, 4 de julho de 2026

Hino a Eros

Hino a Eros 

Eu vos invoco, altíssimo e magnífico, Eros.
As setas vossas, exímio e solerte arqueiro,
o mortal e a divindade, ardentes, submetem.
Dupla vossa santa natureza, no tempo e na eternidade, a soberania.
Céu, terra e mar, os ventos, o Averno e de Telus a prole, 
De todos os reinos, de todos que os habitam,
O curso quem o impõe sois vós, nosso Senhor.
Puro diante de vós, o meu pensamento, Potestade santa,
Que impere em mim a vossa glória e de mim afastai o cego ardor.



Nota do tradutor/autor
Esta é uma tradução minha do Hino Órfico nº 58 dedicado a Eros. Não pretendo traduzir literalmente - as LLMs já o fazem com perfeição -, mas dele proceder e retornar, tal qual o fruto que a árvore contempla e dentro de si a traz, como o efeito que à causa volve. Este é mandato do hierofante. 
πρόοδος-ἐπιστροφή. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

A Ira de Juno Termina

A Ira de Juno Termina

 À margem da mádida ribeira, a belíssima ninfa ajusta a sandália ao delicado pé, enquanto o mancebo que a transportou nos braços se afasta pelo cristalino regato do rio Anauros com um dos pés descalço. Ela fita-me com olhos que, de apolíneo fulgor, rutilam como os raios de Febo, e a minha mente logo me dita: Eis um Nume!

— Nomeiam-me Satúrnia, ó ínclito mortal — pronuncia a Deidade com majestoso cenho —; baixo da etérea estância para este vário orbe sublunar novamente inspecionar.

— Que honra a minha, Domina Santíssima! — exclamo eu, absorto em pio espanto —. Concede-me o Fado a elevada mercê de, face a face, contemplar a beleza perene daqueles que para sempre são!.

— Leda me fazes, criatura do tempo — torna a soberba esposa de Jove —. Ah! Se o Pastor do Ida possuíra o teu siso, inda hoje a altiva Ílion, de Príamo glória, sobre os seus muros soberba reinaria!.

— Entendo-vos, dulcíssima Domina — respondo com submissa vênia —. Poucos penetram os arcanos como eu, que sei ter sido o triunfo da Citeréia no certame alheio à honra e ao brio.

— Mortal, explica-te melhor! — insta a Deusa —. Ou a sã Razão te guia, ou a insânia te roubou o juízo!.

— O kestos himas, o cinto de milagrosa sedução que a Citeréia nua ainda vestia, irradiou na mente de Páris um falso e entorpecente engodo. A astúcia e o dolo triunfaram, não a beleza pura. Sem tal ardil, ouso dizer com reverência: a palma do triunfo pertenceria a Vós, Regina altíssima!


— Julgo encontrar um novo Tirésias. Tens de facto a Razão! Que o resultado do concurso  nulificado seja declarado. Vênus não é mais bela. Minha ira contra os descendentes de Príamo aqui se encerra — anui a Deusa —. Ao Olimpo nival agora volvo, onde festejos e néctar me esperam. Tu, no teu elemento e retiro amável deves quedar-te; mas quando Íris, aquela deia que dos mortais a alma do corpo separa, vier visitar-te, ordeno que ela te conduza à minha presença, para que entre os Imortais sejas meu prudente conselheiro.

 

Nota do autor

Isto é uma criação própria sobre o fim da "ira de Juno", peça central da Enéida. Esta pequena fantasia assume um tom quase jurídico, romano, que invalida o julgamento de Páris sobre a beleza das três divindades. Quase como se pedisse a anulação do certame por vício de consentimento do julgador, Páris, uma vez que o réu encontrava-se sob influência de artefato divino destinado a produzir atração irresistível, o kestos himas, Livro XIV da Ilíada, conhecido como Engano de Zeus (Dios Apátē). 

A referência a Íris como aquela que separa a alma do corpo sob o comando de Juno encontra-se na Eneida de Virgílio (Livro IV, 693-695).

A abertura da peça refere-se a Jasão e os Argonautas, quando ele ajuda Juno a atravessar o rio Anauros e perde uma sandália. 

A menção a Tirésias não é gratuita. Ele, um mortal, foi árbitro entre uma disputa entre Júpiter e Juno e cegado por esta ao perder a disputa (Metamorfoses, III). O mortal desta estória ocupa a mesma função de árbitro acerca de um problema divino. E de maneira inversa à punição de Tirésias, é recompensado.

A divinização do mortal, por fim, pode parecer exagerada, porém não o é, de acordo com o pensamento romano. O conceito romano de "gratia" considerava que um benefício recebido - no caso de Juno, o fim do ressentimento que ela carregava há tempos - criava uma obrigação (officium) que só se resolve com gratia proporcional à dignitas de quem a deve, não ao tamanho aparente do serviço. E a dignitas de Juno, sendo a maior depois da de Júpiter, não admite nada aquém do melhor a que ela pode conceder a um mortal: a vida eterna junto aos deuses do Olimpo.


 

Ode a Minerva

Ode a Minerva
 

Ó Minerva ínclita, de Jove mente e prole, 
O fogo sacro no alto engenho acendes;
Ao mundo, que de brio e vida preenches, 
O Vate cego o inviso enfim contempla.

Tu, virgem impoluta e não domada, 
Do plectro unindo a melodia nítida;
Retórica que o passo não dispersa, 
Mas aos princípios o mortal converte.

Se do deus de Leneu o estro zelas, 
O Vate de Quio, em ti absorto e fixo,
Do siso a dispersão lhe preservas, 
Salvo do mundo e dos vulgares nadas.

Ó Nume excelso! Ó luz da grã solércia, 
Que os lumes cerras para o brilho falso,
Dá-nos o voo, a nítida visão, 
No império teu, de divinal luz pleno.

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Ode a Ulisses e Métis

Canto o Grego astuto, não por braço e ferro, 
Mas pelo agudo, d’alma, invicto engenho; 
Ante a turba, que em dúvida se abisma, 
A máscara veste, falto d'alma o ente,
Mas, solta a voz, as mentes maravilha, 
Mágico d’expressão, dos peitos dono. 
Triunfador do pélago e do fado, 
Pela destreza em vez da força imensa.
De Ílion os muros, que o Gradivo guarda, 
Cederam do cavalo ao cego dolo, 
Ardil que em paz o estrago mudo oculta, 
Vencendo a lide onde o valor falhara.
Mestre dos recursos contra o abismo, 
No antro do Ciclope a mente activa 
Finge o escape sob a lanhuda prole, 
Rindo da sanha que o gigante cega.
A casa volve, e em mísero mendigo 
Se oculta, e os rivais observa e estuda; 
Qual polvo que às penhas se acomoda, 
Dos disfarces sem conta o herói se vale.
É laço vivo que o mundo encadeia, 
Pela Razão regendo o Acaso vago. 
Preclara e augusta Métis, Nume santo, 
Nesta era de Ciclopes e tiranos,
Aos Penates pátrios, Deusa, me guia, 
Este triste devoto assim lhe suplica
 

 

Nota do autor:

Uso Métis e não Minerva ou Atena por julgar que a primeira encerra o princípio da inteligência prática, da astúcia e dos disfarces. É ela quem fabrica a poção que fez Saturno dormir e permitiu a libertação dos seus filhos. É ela quem impera o tempo como imagem da eternidade, como propõe Platão no Timeus. Pois a poção de Métis liberta de Saturno os filhos: o ciclo do tempo abre-se para o cosmos, os deuses se alinham nas suas esferas pela intervenção divina da deusa. A processão e o retorno no devir se iniciam, combinando identidade e diferença. Como o efeito opera segundo a Causa, Atena faz um movimento análogo liberando Ulisses da permanência na ilha de Ogígia e lhe possibilitando o retorno ao mundo da gênese.


Métis não se manifesta apenas no tempo, no vir a ser, é antes a Suma Mediadora entre o Mesmo e o Outro. Neste sentido, tanto Ulisses quanto Minerva dela participam, não lhe estão no mesmo patamar ontológico. Notem: Ulisses frequentemente se disfarça no curso da Odisseia, isto não é atributo de Minerva, mas de Métis. Ou seja, a associação já é clara no texto. Além do que, deve-se ter em linha de conta, que um dos epitetos de Ulisses era "polymetis", de múltiplas astúcias.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

E Cura criou o homem

Cruzando o rio, a Cura o lodo avista, 
Absorta a massa entre as mãos levanta; 
Do barro o homem finge, e a Jove implora 
O espírito vital, que o Nume entrega.
Querendo a Cura o nome seu impor-lhe, 
Jove o veda, e o seu clama por direito. 
Tellus então se ergue, e o nome pede, 
Pois seu corpo ao boneco ela cedera.
Satúrnio, o juiz, a lide assim decide: 
“Tu, Jove, a alma; a Tellus, o corpo hajas; 
Pois que a Cura o formou, que a Cura o reja 
Enquanto o Fado a vida não lhe termine. 
Do nome em dúvida, Homem se proclame, 
Pois que do Humo a substância se tira.

Hyginus - Fabulae, 220