Hino Órfico a Perséfone
Perséfone, filha do magno Zeus, vem, ó bem-aventurada,
deusa unigênita, recebe com agrado as nossas oferendas;
de Plutão a veneranda esposa, discreta e vivificante,
tu que deténs as portas de Hades sob os abismos da terra,
Vindicadora, de belas tranças, imaculada de Deo a flor,
das Eumênides és a mãe, ó rainha dos subterrâneos;
Zeus a gerou, a donzela, em união inefável,
Mãe do estrondoso e multiforme Eubuleu.
companheira de jogos das Estações, radiosa e de forma esplendorosa,
toda poderosa, jovem que transbordas em frutos, copiosa,
luminosa e crescente, a única desejada pelos mortais.
Tu, que és primaveril e te alegras com as brisas dos prados,
revelando o teu corpo sagrado nos rebentos verdejantes;
tu, que foste raptada e desposada no tálamo outonal,
és tu somente a vida e a morte para os mortais cansados de sofrer.
Perséfone, a todos sempre nutres
e a todos distribuis a morte.
Ouve, deusa bem-aventurada,
e faz surgir novamente da terra os frutos,
florescendo em paz, sob a suave mão da saúde,
numa vida próspera que nos conduza a uma velhice radiosa,
ao teu domínio, ó altíssima soberana,
e ao reino do poderoso Plutão.
Notas do tradutor
Ungênita: aqui sigo Plutarco. Segundo ele: "Deméter separa rápida e violentamente a alma do corpo, enquanto Perséfone separa suave e gradualmente o nous da alma, e por isso é chamada monogenés; pois apenas o que há de melhor no ser humano se torna único ao ser separado por ela" (De facie in orbe lunae, 28, 943B).
Vindicadora. Em Plutarco, Perséfone aparece associada ao julgamento e à destinação das almas. No De facie, ela separa as almas que rumarão para o Sol, as dos justos, daquelas que retornarão ao mundo sublunar, as dos injustos, submetidas ao ciclo da transmigração.
"Filha de Deo". Deo era outro nome pelo qual Deméter era chamada.
Eubuleu é filho de Perséfone, o Eubuleu órfico, título de Dioniso.
O nome também refere-se ao porqueiro que teve seus suínos engolidos pela fenda na terra pela qual Orco penetrou com a raptada Perséfone.
Há outra camada interpretativa possível: nas tabuinhas de ouro órficas, ele é chamado de "o de bom conselho". Ele aparece como portador de tocha, papel que sugere condutor de almas na saída do Hades. A associação com a tocha ainda permite uma leitura de Eubuleu como figura de condução no espaço ctônico, embora a identificação estrita com um psicopompo não deva ser tomada como certa.
Crescente. É minha tradução para "cornuda" ou "córnea". Estes cornos são as da lua, em crescente. Ou seja, Perséfone é uma deusa que encontra seu elemento na Lua, como refere Plutarco: ela é soberana do limiar lunar e Deméter, sua mãe, soberana da terra, vide De Genio Socratis (591B). Ou seja, Perséfone vive na fronteira entre o mundo sublunar e o inteligível. Ela separa a psyche do nous, na Lua, e envia este para o Sol ou impera que a alma volte à existência sublunar como pharmakon das suas injustiças.
Por outra, é comum encontrar-se traduções, em português, que são fiéis ao grego, mas soam extramamente mal, por exemplo, traduzir Hera Boōpis (Βοῶπις), como Hera de olhos de vaca. Melhor seria traduzir por Hera de sereno e majestoso olhar - era o que Βοῶπις significava - do que ser literal e ocultar o significado. Lembre-se, são textos gregos e eles davam imensa importância à beleza e à persuassão. Há de se julgar sempre o momento histórico (Kairós) no qual o texto foi produzido e também no qual ele será lido.
Perséfone como a deusa que dá a vida e distribui a morte: nós, mortais, vimos à vida tal e qual Perséfone enquanto Kore, que se une à sua mãe, Deméter, no Olimpo. E morremos, ou baixamos ao Hades, como Perséfone ao retornar ao reino cimério de Hades/Plutão.
Sobre o final do hino, o pedido de uma velhice radiosa e à descida ao reino de Perséfone e de Plutão se conecta com a crença órfica na imortalidade da alma. Como diz a Petélia:
"Dize: Sou filho da Terra e do Céu estrelado;
mas minha estirpe é celeste — isto vós mesmos sabeis.
Estou seco de sede e pereço: dai-me, depressa,
a água fria que mana do Lago da Memória."
Dito isto, a alma "reinará entre os demais heróis".
Ou ainda mais, como está escrito nas lâminas de Pelina:"diz a Perséfone que o próprio Baco te libertou". Ou seja, no Hades não há a dissolução da alma, mas sua continuidade; a descida ao domínio de Perséfone é passagem de estado, não aniquilação do ser.