A Ira de Juno Termina
À margem da mádida ribeira, a belíssima ninfa ajusta a sandália ao delicado pé, enquanto o mancebo que a transportou nos braços se afasta pelo cristalino regato do rio Anauros com um dos pés descalço. Ela fita-me com olhos que, de apolíneo fulgor, rutilam como os raios de Febo, e a minha mente logo me dita: Eis um Nume!
— Nomeiam-me Satúrnia, ó ínclito mortal — pronuncia a Deidade com majestoso cenho —; baixo da etérea estância para este vário orbe sublunar novamente inspecionar.
— Que honra a minha, Domina Santíssima! — exclamo eu, absorto em pio espanto —. Concede-me o Fado a elevada mercê de, face a face, contemplar a beleza perene daqueles que para sempre são!.
— Leda me fazes, criatura do tempo — torna a soberba esposa de Jove —. Ah! Se o Pastor do Ida possuíra o teu siso, inda hoje a altiva Ílion, de Príamo glória, sobre os seus muros soberba reinaria!.
— Entendo-vos, dulcíssima Domina — respondo com submissa vênia —. Poucos penetram os arcanos como eu, que sei ter sido o triunfo da Citeréia no certame alheio à honra e ao brio.
— Mortal, explica-te melhor! — insta a Deusa —. Ou a sã Razão te guia, ou a insânia te roubou o juízo!.
— O kestos himas, o cinto de milagrosa sedução que a Citeréia nua ainda vestia, irradiou na mente de Páris um falso e entorpecente engodo. A astúcia e o dolo triunfaram, não a beleza pura. Sem tal ardil, ouso dizer com reverência: a palma do triunfo pertenceria a Vós, Regina altíssima!.
— Julgo encontrar um novo Tirésias. Tens de facto a Razão — anui a Deusa —. Ao Olimpo nival agora volvo, onde festejos e néctar me esperam. Tu, no teu elemento e retiro amável deves quedar-te; mas quando Íris, aquela deia que dos mortais a alma do corpo separa, vier visitar-te, ordeno que ela te conduza à minha presença, para que entre os Imortais sejas meu prudente conselheiro.
Nota do autor
Isto é uma criação própria sobre o fim da "ira de Juno", peça central da Enéida. Esta pequena fantasia assume um tom quase jurídico, romano, que invalida o julgamento de Páris sobre a beleza das três divindades. Quase como se pedisse a anulação do certame por vício de consentimento do julgador, Páris, uma vez que o réu encontrava-se sob influência de artefato divino destinado a produzir atração irresistível, o kestos himas, Livro XIV da Ilíada, conhecido como Engano de Zeus (Dios Apátē).
A referência a Íris como aquela que separa a alma do corpo sob o comando de Juno encontra-se na Eneida de Virgílio (Livro IV, 693-695).
A abertura da peça refere-se a Jasão e os Argonautas, quando ele ajuda Juno a atravessar o rio Anauros e perde uma sandália.
A menção a Tirésias não é gratuita. Ele, um mortal, foi árbitro entre uma disputa entre Júpiter e Juno e cegado por esta ao perder a disputa (Metamorfoses, III). O mortal desta estória ocupa a mesma função de árbitro acerca de um problema divino. E de maneira inversa à punição de Tirésias, é recompensado.
A divinização do mortal, por fim, pode parecer exagerada, porém não o é, de acordo com o pensamento romano. O conceito romano de "gratia" considerava que um benefício recebido - no caso de Juno, o fim do ressentimento que ela carregava há tempos - criava uma obrigação (officium) que só se resolve com gratia proporcional à dignitas de quem a deve, não ao tamanho aparente do serviço. E a dignitas de Juno, sendo a maior depois da de Júpiter, não admite nada aquém do melhor a que ela pode conceder a um mortal: a vida eterna junto aos deuses do Olimpo.