quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ogígia

 
A desesperação às massas, nefanda e danosa, espraia-se. A furiosa e ardente Alecto o orbe domina; a cizânia, seu conhecido ardil, lutuosa impera.
Do inexorável Averno, o Caos, vetusto monarca, novamente se ergue (1). O tartáreo cortejo o segue. O fim duma Era, inevitável, esperado. A Esperança o recebe e se ri, enquanto as portas de todas as cidades a ele se abrem diante da confiança cega dos mortais, desastrosa desídia!
Ao meu lado, Calipso (2), a formosa filha de Atlas conforta-me e adverte:
— Para si, aqui comigo, o perigo que se abate sobre a sua gente, criatura do tempo (3), não tema. Por decreto dos Fados, a sua idade, como Troia, ao exício há de rumar. Nem a piedade, nem preces, votivas e fragrantes oferendas o seu édito poderão transmutar.
— Domina, reverente peço-lhe desta desdita a explicação.
— A revelação entrego-lha, por Apolo inspirada, assim disse o sábio Políbio (4), do patrício e forte Cipião o mentor: "Nesta idade, a penúria de varões e a míngua de prole fizeram-se gerais por toda a Hélade. Ermas e silenciosas, as cidades tornaram-se, estéreis os campos antes fecundos, sem que a hórrida Belona com guerras ou o miasma pestífero lhes tivesse fulminado.
Brotou antes o mal de uma mais torpe e funesta nascente: entregou-se a multidão ao fausto vão, à sórdida avareza e à estúpida indolência. Desdenham os homens o santo voto conjugal; mas, se ao matrimónio acedem, o sustento aos rebentos que lhes nascem negam, ou apenas um ou dois infantes criam, tão-só para que, educados na covardia e nutridos no luxo, herdem intacto o avaro erário e a fortuna dos pais". Como ontem, hoje impera a seva ambição; modéstia, prudência e sabedoria foram pela opulência trocadas. Como ontem, os ímpios e cegos mortais julgam que basta a razão e as leis para esta situação evitar. Errados estavam e estão. A sua era ao ordenamento divino não se pode furtar, como não o pôde a grega. Tudo aquilo que entrou no ser há de sair, édito do onipotente e grave consílio dos numes, leve-o no conceito. 
Estremeci. O céu violáceo, iluminado pelo Sol avernal do Elísio (5), era tão melífluo como a presença da deusa a ladear-me e instruir.
— É a isto que estou condenado a retornar? Que nefasta condenação à luz é esta (6)?
— Criatura do tempo, abrigo aqui lhe dou. Mas ao ciclo da transmigração está destinado a retornar. Apenas duas raças partilham da Terra: a minha, imortal e para sempre feliz, e a sua, a mortal para a qual o onipotente Jove mistura as jarras do bem e do mal. Porém, porque bebeu das fontes de Ogígia, liberto está de provar as águas do lento e abominável Letes. Assim, a sua memória do que foi e do que agora vê há de perdurar. Quando o conflito na baixa esfera findar, não o posso mais por cá reter.

 

Notas do Autor

1) O Caos é localizado no Averno, vide Virgílio, Eneida VI, 264-267, "Deuses, a quem pertence o império das almas, e sombras silentes, e Caos e Flegetonte, lugares que se calam longamente na noite: seja-me lícito dizer o que ouvi, seja-me permitido, com o vosso beneplácito, revelar coisas mergulhadas na terra profunda e na escuridão".
Em Ovídio, Metamorfoses X, 29: per ego haec loca plena timoris,
per Chaos hoc ingens vastique silentia regni,
Eurydices, oro, properata retexite fata.

2) Calipso: Kαλυψώ (Kalypsṓ), tradicionalmente relacionado com o verbo καλύπτω (kalýptō), que significa cobrir, ocultar, esconder e, por extensão, manter algo fora da vista. Para maior esclarecimento, recomendo o sítio Society for Classical Studies.

3) Criatura do tempo refere-se às almas criadas para o âmbito do devir (o que a tradição posterior chamou esfera sublunar), cf. Platão, Timeu 27d–28a e 41e–42d.


4) Políbio, Histórias XXXVI, 17 (§§ 5-10). Trata-se de uma reinterpretação do seu texto sobre a decadência das cidades. Ele crê que causas materiais levam uma civilização ao colapso. Calipso afirma, pelo contrário, que o ciclo da gênese, desenvolvimento e corrupção são leis cósmicas, divinas, impossíveis de ser alteradas pela razão ou atos humanos. Fazer do racionalista mais lúcido da Antiguidade a testemunha involuntária da lei cósmica é mais que ironia: é opô-lo a Platão, que, pela voz das Musas, afirma na República (VIII, 546a–d): "Para uma cidade constituída como a vossa, é difícil a mudança; mas, visto que tudo o que nasceu está sujeito à corrupção, uma tal constituição não durará para todo o sempre, mas há-de dissolver-se [...] E a dissolução dar-se-á da seguinte maneira: não só para as plantas que crescem na terra, mas também para os animais que vivem sobre ela, ocorrem crises de fecundidade e de esterilidade da alma e do corpo, sempre que as rotações dos círculos fecham as órbitas de cada espécie [...]. Os homens que criastes, embora sejam sábios, não conseguirão, por meio do cálculo aliado à percepção sensível, acertar com a boa ou má geração, mas passar-lhes-á despercebida e gerarão filhos quando não o deviam" (Platão, A República, Livro VIII, 546a–d). Confronto, portanto, Platão e Políbio. 

5) O Sol do Elísio  tem sua fonte no Rapto de Proserpina de Claudiano: amissum ne crede diem: sunt altera nobis
sidera, sunt orbes alii, lumenque videbis
purius Elysiumque magis mirabere solem.
Já na Eneida VI, 640-641, na chegada de Eneias e da Sibila aos Campos Elísios:
largior hic campos aether et lumine vestit
purpureo, solemque suum, sua sidera norunt.
Daí a menção da luz púrpura do sol avernal do Elísio. Faço notar que como este é uma região do mundo inferior, ou seja, do Averno, uso avernal como adjetivo de maneira própria e poética.

6) Eneida VI, 719-721. Eneias vê as almas bebendo o Letes e pergunta ao pai, Anquises:
o pater, anne aliquas ad caelum hinc ire putandum est
sublimis animas iterumque ad tarda reverti
corpora? quae lucis miseris tam dira cupido?





domingo, 6 de setembro de 2026

Hino Órfico a Perséfone

Hino Órfico a Perséfone 

Perséfone, filha do magno Zeus, vem, ó bem-aventurada,
deusa unigênita, recebe com agrado as nossas oferendas;
de Plutão a veneranda esposa, discreta e vivificante,
tu que deténs as portas de Hades sob os abismos da terra,
Vindicadora, de belas tranças, imaculada de Deo a flor, 
das Eumênides és a mãe, ó rainha dos subterrâneos;
Zeus a gerou, a donzela, em união inefável,
Mãe do estrondoso e multiforme Eubuleu.
companheira de jogos das Estações, radiosa e de forma esplendorosa,
toda poderosa, jovem que transbordas em frutos, copiosa,
luminosa e crescente, a única desejada pelos mortais.
Tu, que és primaveril e te alegras com as brisas dos prados,
revelando o teu corpo sagrado nos rebentos verdejantes;
tu, que foste raptada e desposada no tálamo outonal,
és tu somente a vida e a morte para os mortais cansados de sofrer.
Perséfone, a todos sempre nutres
e a todos distribuis a morte.
Ouve, deusa bem-aventurada,
e faz surgir novamente da terra os frutos,
florescendo em paz, sob a suave mão da saúde,
numa vida próspera que nos conduza a uma velhice radiosa,
ao teu domínio, ó altíssima soberana,
e ao reino do poderoso Plutão. 

 



Notas do tradutor

Ungênita: aqui sigo Plutarco. Segundo ele: "Deméter separa rápida e violentamente a alma do corpo, enquanto Perséfone separa suave e gradualmente o nous da alma, e por isso é chamada monogenés; pois apenas o que há de melhor no ser humano se torna único ao ser separado por ela" (De facie in orbe lunae, 28, 943B).

Vindicadora. Em Plutarco, Perséfone aparece associada ao julgamento e à destinação das almas. No De facie, ela separa as almas que rumarão para o Sol, as dos justos, daquelas que retornarão ao mundo sublunar, as dos injustos, submetidas ao ciclo da transmigração.

"Filha de Deo". Deo era outro nome pelo qual Deméter era chamada. 

Eubuleu é filho de Perséfone, o Eubuleu órfico, título de Dioniso.
O nome também refere-se ao porqueiro que teve seus suínos engolidos pela fenda na terra pela qual Orco penetrou com a raptada Perséfone.
Há outra camada interpretativa possível: nas tabuinhas de ouro órficas, ele é chamado de "o de bom conselho". Ele aparece como portador de tocha, papel que sugere condutor de almas na saída do Hades. A associação com a tocha ainda permite uma leitura de Eubuleu como figura de condução no espaço ctônico, embora a identificação estrita com um psicopompo não deva ser tomada como certa.

Crescente. É minha tradução para "cornuda" ou "córnea". Estes cornos são as da lua, em crescente. Ou seja, Perséfone é uma deusa que encontra seu elemento na Lua, como refere Plutarco: ela é soberana do limiar lunar e Deméter, sua mãe, soberana da terra, vide De Genio Socratis (591B). Ou seja, Perséfone vive na fronteira entre o mundo sublunar e o inteligível. Ela separa a psyche do nous, na Lua, e envia este para o Sol ou impera que a alma volte à existência sublunar como pharmakon das suas injustiças.
Por outra, é comum encontrar-se traduções, em português, que são fiéis ao grego, mas soam extramamente mal, por exemplo, traduzir Hera Boōpis (Βοῶπις), como Hera de olhos de vaca. Melhor seria traduzir por Hera de sereno e majestoso olhar - era o que Βοῶπις significava - do que ser literal e ocultar o significado. Lembre-se, são textos gregos e eles davam imensa importância à beleza e à persuassão. Há de se julgar sempre o momento histórico (Kairós) no qual o texto foi produzido e também no qual ele será lido. 

Perséfone como a deusa que dá a vida e distribui a morte: nós, mortais, vimos à vida tal e qual Perséfone enquanto Kore, que se une à sua mãe, Deméter, no Olimpo. E morremos, ou baixamos ao Hades, como Perséfone ao retornar ao reino cimério de Hades/Plutão.

Sobre o final do hino, o pedido de uma velhice radiosa e à descida ao reino de Perséfone e de Plutão se conecta com a crença órfica na imortalidade da alma. Como diz a Petélia:
"Dize: Sou filho da Terra e do Céu estrelado;
mas minha estirpe é celeste — isto vós mesmos sabeis.
Estou seco de sede e pereço: dai-me, depressa,
a água fria que mana do Lago da Memória."
Dito isto, a alma "reinará entre os demais heróis".
Ou ainda mais, como está escrito nas lâminas de Pelina:"diz a Perséfone que o próprio Baco te libertou". Ou seja, no Hades não há a dissolução da alma, mas sua continuidade; a descida ao domínio de Perséfone é passagem de estado, não aniquilação do ser.


 
 

terça-feira, 4 de agosto de 2026

Tratado da Genitura do Orbe e a Sucessão dos Evos

A origem rude no princípio do ciclo. O primeiro a imperar foi Saturno, do mundo a infância inculta. Os homens, sementes discordes em montão lançadas, viviam em ferocidade bárbara, da Razão destituídos. Não se confunda este estado de rudeza selvagem com a Idade de Ouro, o hórrido engano dos vates, pois aqui a humanidade jazia absorta em ignorância e não em bondade.

A rusticidade primitiva e esquálida baqueia. Inicia-se das almas a pacificação. O Tonante assume o cetro. A ferocidade é posta de parte, a vida humana passa a ser cultivada pela disciplina.

Sob a regência de Mavorte, o nume fero, a humanidade celebra da cidade o surgimento, enfim em sociedade passa a viver. A desumanidade antiga é submetida por uma certa moderação. Surgem os ornamentos das artes e das fabricações. É o tempo em que o Engenho humano estabelece os alicerces da sociedade, aos campos o ferro sulcador dá forma. Marte a culminar sua obra, Roma funda, dá-lhe limites, honra, razão e mandato: submeter os arrogantes e perdoar os submissos, pelo orbe a justiça há de imperar.

Da Sabedoria a beleza, o domínio da Citeréia Celestial floresce. A arte seu brilho alcança. As ações humanas são adornadas pela Prudência. Os patrícios, de Marte e Vênus descendentes, os costumes por eles são formados. Deles vem a retidão. A humanidade governada pelo poder da Providência, que os assinala, caminha, em tudo ordem e beleza há.

Sob o ágil Cilênio, o nobre génio do homem aguça seu poder de invenção ao ponto mais extremo. Mas, ai de nós! A inteligência, privada de uma vida virtuosa, degenera em improbidade. O homem novo* no Senado pede justiça, porém desdenha o necessário julgamento. A ordem estremece patrícia, livre de amarras a Cobiça vocifera. A sociedade, sem Penates, sequer Lares, prevalece. Prevalece a audácia, com ela os crimes, os costumes confusos e as maquinações infandas, de mal prenhes. 

Quando a perversidade tudo assombra e a irreligião senhoreia o mundo, do Olimpo o Demiurgo observa o estrago imenso. Para punir o ímpio e curar a chaga indelével,  intervém com o fogo ou com as águas do Dilúvio. O mundo purificado queda. Não é a destruição final, o orbe à sua face antiga retorna para que o ciclo perene possa, como o divino Platão ensina, recomeçar.

 

Nota do autor/tradutor
Esta é uma adaptação resumida do texto de mesmo nome de Julius Firmicus Maternus. O texto fala de recorrência de ciclos, de uma grande apocatastasis. O que o torna único é identificar a "Idade do Ouro" do período de Saturno como império da irracionalidade e não da felicidade, como é referido por Hesíodo. A humanidade vai caminhando da desordem à ordenação racional para depois, como qualquer coisa que veio a ser, se corromper por sua natureza.

* Por "homem novo no senado" entenda-se o homo novus romano, o primeiro de sua família a alcançar as magistraturas curuis. 

O texto pode soar aristocrático, mas ele só reproduz o padrão de pensamento do período. Não se pode tentar injetar valores contemporâneos no passado sob o risco de descaracterizá-lo. 

domingo, 19 de julho de 2026

Hino Órfico ao Magno Plutão

 Hino Órfico ao Magno Plutão

Ó Tu, que habitas no profundo Orco, 
Do Averno opaco, o pavoroso assento; 
Aceita, ó Nume, em pio e ledo rosto, 
As preces nossas, Tartáreo Tonante!

Ó grão Plutão, que da extensiva Terra 
As chaves guardas, e o mortal sustentas; 
Dando às humanas figuras a messe, 
Os frutos de ouro, que no seio nutres.

Tua é a terça parte, a estância imensa, 
Dos Deuses trono, dos mortais arrimo; 
Tu, que ao Aqueronte os fins estendes, 
E o trono firmas onde o dia murcha.

Dos entes todos o Fado governas, 
Ó Dite sábio! Tu, que à doce vida 
Da prole de Ceres o fado mudaste; 
E a furto, em carro, para o mudo Antro, 
Levaste a noiva, às Tenárias portas.
Dos atos todos és juiz supremo, 
Onipotente, egrégio, e digno de honra; 
Atende ao Vate em pio siso e mudo, 
E às santas aras, favorável, desce!





Notas do tradutor


O Hino Órfico a Plutão/Hades o identifica como monarca da terça parte do cosmos, a qual divide com Júpiter e Netuno. Para Proclus, no entanto, essa divisão é entendida dentro do esquema da tríade:
1. Permanência (μονή, monḗ)
2. Processão (πρόοδος, próodos)
3. Retorno (ἐπιστροφή, epistrophḗ) 
Para ele, Cronos representa a permanência (monḗ); Reia (Hécate), a processão (próodos); Zeus/Plutão, a atividade demiúrgica pela qual o universo é ordenado e reconduzido às suas causas, realizando o retorno (epistrophḗ).

No Averno, a alma é julgada e purificada, sendo por sua providência reconduzida às suas causas intelectuais, cujo símbolo é Cronos, no entanto, não de forma direta, mas através de um longo ciclo de reencarnações.

Ele é o Juiz Supremo, o "juiz dos actos todos", avalia a dignidade do participante para determinar o seu lugar no ciclo de retornos e ascensões, no ciclos da transmigração das almas, garantindo que a justiça cósmica (Dike) se cumpra através da compensação e da purificação. É a garantia de que a Unidade jamais se interrompa, nem mesmo no opaco Averno. Onde o néscio vê a morte, o Hierofante contempla a atividade eterna do retorno à Causa.

É Platão quem assevera que Plutão é um "sofista admirável" pois convence as almas da bondade da esfera avernal. Pode-se muito bem também dizer-se que é ele quem as conduz, por meios da persuasão, ao retorno à existência sublunar. Como ele diz no Fédon, (72c–e): “If all things which partook of life were to die, and after they were dead remained in the form of death, and did not come to life again, all would at last die, and nothing would be alive.” Mais adiante, ele completa: “The living spring from the dead, and [...] the souls of the dead are in existence” ( tradução de  Benjamin Jowett ). Ou seja, o regime do mundo sublunar implica no ciclo interminável da transmigração das alma. Plutão é o Arconte do deste ciclo.

Cabe notar-se que a existência junto à divindade não é condição necessária à salvação. No mito de Er, é justamente a alma que conviveu junto aos deuses, no céu, que faz a pior escolha: a de reencarnar como um tirano que comeria os próprios filhos. 

Ora, foi a alma que contemplou a imagem do Bem, o Uno, o mundo divino que optou pela senda do mal e, ao termo da sua vida terrena, será condenado ao Tártaro, a expiar seus crimes.

Quem fez a melhor escolha? Foi aquele que ouviu o canto das sereias, que segundo Platão entoam suas melodias no Orco, e soube resistir-lhes. Aquele que não foi exposto à imagem do Bem, mas ao sofrimento, ao desafio constante e os superou devido à Métis: Odisseu.

Mesmo junto à divindade, o humano não se afasta do perigo e da dor. É pela métis que ele deve-se conduzir quer no mundo sublunar quer no celestial. Pois ambos esses dois escondem perigos que podem por a perder a felicidade humana.

Porém, nem mesmo a astúcia pode salvar Odisseu do ciclo das reencarnações. É aquele que é agraciado por Prosérpina, Tirésias, que conquista a vitória sobre este ciclo. A sabedoria, que tem olhos para a treva supraessencial na qual habitam os numes, é o único caminho para a salvação. E este será o tema de um hino a ser publicado.
 

sábado, 4 de julho de 2026

Hino a Eros

Hino a Eros 

Eu vos invoco, altíssimo e magnífico, Eros.
As setas vossas, exímio e solerte arqueiro,
o mortal e a divindade, ardentes, submetem.
Dupla vossa santa natureza, no tempo e na eternidade, a soberania.
Céu, terra e mar, os ventos, o Averno e de Telus a prole, 
De todos os reinos, de todos que os habitam,
Quem impõe o curso sois vós, nosso Senhor.
Puro diante de vós, o meu pensamento, augusto nume,
Que impere em mim a vossa glória e de mim afastai o cego ardor.



Nota do tradutor/autor
Esta é uma tradução minha do Hino Órfico nº 58 dedicado a Eros. Não pretendo traduzir literalmente - as LLMs já o fazem com perfeição -, mas dele proceder e retornar, tal qual o fruto que a árvore contempla e dentro de si a traz, como o efeito que à causa volve. Este é mandato do hierofante. 
πρόοδος-ἐπιστροφή. 

terça-feira, 16 de junho de 2026

A Ira de Juno Termina

A Ira de Juno Termina

 À margem da mádida ribeira, a belíssima ninfa ajusta a sandália ao delicado pé, enquanto o mancebo que a transportou nos braços se afasta pelo cristalino regato do rio Anauros com um dos pés descalço. Ela fita-me com olhos que, de apolíneo fulgor, rutilam como os raios de Febo, e a minha mente logo me dita: Eis um Nume!

— Nomeiam-me Satúrnia, ó ínclito mortal — pronuncia a Deidade com majestoso cenho —; baixo da etérea estância para este vário orbe sublunar novamente inspecionar.

— Que honra a minha, Domina Santíssima! — exclamo eu, absorto em pio espanto —. Concede-me o Fado a elevada mercê de, face a face, contemplar a beleza perene daqueles que para sempre são!.

— Leda me fazes, criatura do tempo — torna a soberba esposa de Jove —. Ah! Se o Pastor do Ida possuíra o teu siso, inda hoje a altiva Ílion, de Príamo glória, sobre os seus muros soberba reinaria!.

— Entendo-vos, dulcíssima Domina — respondo com submissa vênia —. Poucos penetram os arcanos como eu, que sei ter sido o triunfo da Citeréia no certame alheio à honra e ao brio.

— Mortal, explica-te melhor! — insta a Deusa —. Ou a sã Razão te guia, ou a insânia te roubou o juízo!.

— O kestos himas, o cinto de milagrosa sedução que a Citeréia nua ainda vestia, irradiou na mente de Páris um falso e entorpecente engodo. A astúcia e o dolo triunfaram, não a beleza pura. Sem tal ardil, ouso dizer com reverência: a palma do triunfo pertenceria a Vós, Regina altíssima!


— Julgo encontrar um novo Tirésias. Tens de facto a Razão! Que o resultado do concurso  nulificado seja. Vênus não é a mais bela. Minha ira contra os descendentes de Príamo aqui se encerra — anui a Deusa. Ao Olimpo nival agora volvo, onde festejos e néctar me esperam. Tu, no teu elemento e retiro amável deves quedar-te; mas quando Íris, aquela deia que dos mortais a alma do corpo separa, vier visitar-te, ordeno que ela te conduza à minha presença, para que entre os Imortais sejas meu prudente conselheiro.

 

Nota do autor

Isto é uma criação própria sobre o fim da "ira de Juno", peça central da Enéida. Ela se inspira diretamente na obra de Luciano, Diálogos dos deuses, no qual Atena exige que Afrodite/Vênus se apresente a Páris sem vestir seu kestos himas. Como Luciano é uma fonte tardia, do século II DC, não refletindo o texto homérico ou a tradição a ele associada, imaginei uma outra história na qual essa exigência nunca tivesse sido feita e o ardil de Vênus passasse desapercebido. Cabe lembrar que Vênus é extremamente solerte. Safo a chama doloplokos, “tecedora de ardis”, e no próprio Hino Homérico nº 5, ela seduz Anquises com uma mentira, dizendo-se mortal e filha de Otreu.

Esta pequena fantasia assume um tom quase jurídico, romano, que invalida o julgamento de Páris sobre a beleza das três divindades. Quase como se pedisse a anulação do certame por vício de consentimento do julgador, Páris, uma vez que o julgador encontrava-se sob influência de artefato divino destinado a produzir atração irresistível, o kestos himas, Livro XIV da Ilíada, conhecido como Engano de Zeus (Dios Apátē). 

A referência a Íris como aquela que separa a alma do corpo sob o comando de Juno encontra-se na Eneida de Virgílio (Livro IV, 693-695).

A abertura da peça refere-se a Jasão e os Argonautas, quando ele ajuda Juno a atravessar o rio Anauros e perde uma sandália. Porém, tomo essa passagem apenas como referência simbólica de Juno. A história do meu texto não tem qualquer outra relação com a de Jasão. 

A menção a Tirésias não é gratuita. Ele, um mortal, foi árbitro entre uma disputa entre Júpiter e Juno e cegado por esta ao perder a disputa (Metamorfoses, III). O mortal desta estória ocupa a mesma função de árbitro acerca de um problema divino. E de maneira inversa à punição de Tirésias, é recompensado.

A divinização do mortal, por fim, pode parecer exagerada, porém não o é, de acordo com o pensamento romano. O conceito romano de "gratia" considerava que um benefício recebido - no caso de Juno, o fim do ressentimento que ela carregava há tempos - criava uma obrigação (officium) que só se resolve com gratia proporcional à dignitas de quem a deve, não ao tamanho aparente do serviço. E a dignitas de Juno, sendo a maior depois da de Júpiter, não admite nada aquém do melhor a que ela pode conceder a um mortal: a vida eterna junto aos deuses do Olimpo.


 

Ode a Minerva

Ode a Minerva
 

Ó Minerva ínclita, de Jove mente e prole, 
O fogo sacro no alto engenho acendes;
Ao mundo, que de brio e vida preenches, 
O Vate cego o inviso enfim contempla.

Ó virgem, que impoluta e não domada, 
Do fino siso és nume claro e puro;
 
R
etórica, que o passo não dispersa, 
Aos sãos princípios o mortal converte.

Se do deus de Leneu o estro zelas, 
O Vate de Quio, em ti absorto e fixo,
Do siso a dispersão lhe preservas, 
Salvo do mundo e dos vulgares nadas.

Ó Nume excelso! Ó luz da grã solércia, 
Que os lumes cerras para o brilho falso,
Dá-nos o voo, a nítida visão, 
No império teu, de divinal luz pleno.

 

Nota do autor

O Hino a Minerva apresenta-nos ela como a personificação da Inteligência Divina, a deusa que impera o regresso das almas do mundo sublunar ao inteligível.

Ela é a "mente e prole" de Jove, a "Inteligência de Júpiter", sujeitando a "Necessidade" à unificação e à ordenação racional. É aquela que irradia o "fogo sacro" da submissão do múltiplo ao Uno.

Ela é a "virgem e não domada", expressão metafórica da sua recusa em ser complacente com a ordem da matéria.

Quanto aos discursos, cito literalmente o Livro XIII da Odisséia quando Minerva alegremente interpela Ulisses: "Falaz e simulado, teria de ser quem te vencesse em toda espécie de enganos, mesmo que fosse um deus a enfrentar-te. [...] Mas vamos, não mais disso falemos, ambos da solércia somos exímios — pois tu és de longe o melhor dos mortais no ardil e nos discursos, e eu, entre todos os deuses, assinalada sou por métis e astúcia."

"Aos princípios o mortal converte" indica que ela é o princípio da conversão, o retorno do efeito à causa, a volta da alma ao mundo dos deuses.

A referência ao deus de Leneu, Dionísio, lembra-nos que foi Minerva quem lhe salvou o coração, quando aquele foi despedaçado pelos Titã, e o levou a Apolo ( o Uno ), que lhe operou a ressurreição.

O "Vate de Quio" remete-nos a Homero, o poeta cego, que sob a luz de Apolo e Minerva podem contemplar o reino do inteligível, o domínio das formas e expressá-lo aos mortais através de metáforas e estórias.

O pedido final para "cerrar os lumes para o brilho falso" reflete a necessidade da alma de contemplar a verdade dessas formas e cerrar os olhos aos enganos do mundo sublunar, governados pela Causa Errante da Necessidade. No caso especial de Minerva, seus atos são guiados por Métis, princípio do qual descende. É ela quem acompanha e protege Ulisses durante seu retorno, o homem designado por Homero como polymetis, de inúmeras astúcias. Ou seja, a existência no mundo sublunar é marcada pela convivência com o perigoso e o nefasto, e estes não devem ser meramente evitados, mas combatidos pela inteligência que advém da deusa.Enfim, ela é a deusa da phronésis – a inteligência que sabe o que deve ser feito no momento certo para o bem individual e coletivo. 

O poema termina com o pedido: "dá-nos o voo, a nítida visão", que pode ser interpretado como o pedido pela recuperação da "natureza alada" da alma, para que ela possa voltar à esfera divina da qual é proveniente.

Em suma, o hino celebra Minerva como a Potência Guardiã e Redentora que, através da sabedoria, da ordem e da Métis, resgata o humano da dispersão do baixo mundo e o reconduz à unidade divina.

Recomendo fortemente a leitura do livro de Proclus "On Plato Cratylus", tradução de Brian Duvick, editora Bloomsbury, 2007, para uma compreensão aprofundada dos princípios hermenêuticos do grande filósofo neoplatônico e que me guiaram na elaboração da interpretação desta ode a Minerva.