Cantarei Hércules, de Jove a ínclita prole,
Herói que entre os mortais poderoso se sublima;
Em Tebas, das mil danças, de Alcmena veio à luz,
Quando o Satúrnio das nuvens a envolvera.
Vagou outrora por terrenos vastos,
Por mares, sob o império do rei Euristeu;
Muitos males sofreu, graves trabalhos,
Mas hoje no Olimpo nival reside,
Tendo Hebe, de fulgente olhar, por esposa.
Salve, ó de Jove progênie ditosa,
Dá-me faustos Fados!
Nota ao hino
A análise deste hino de acordo com o neoplatonismo revela a jornada
metafísica da alma dos heróis, no caso Hércules que opera como
intermediário entre a ordem divina e a humana.
No hino, Hércules,
por sua origem divina e por seus feitos, manifesta exemplarmente o
movimento de conversão ao Princípio. Sua vinda à luz representa o
mistério da união da alma imortal com a natureza mortal; por outras
palavras, sua descida ao mundo da génese ocorreu para auxiliar os
mortais em seu retorno ao convívio com o divino.
Ele muito errou,
cometeu violências e teve de suportar provações, sofrimentos e
realizar grandes feitos, isso é interpretado como a pressão
esmagadora da matéria e da necessidade física sobre a alma que
descende ao mundo da gênese e a ação
necessária para superar o seu império. Para os neoplatônicos, os
sofrimentos de uma alma virtuosa servem para fortalecer sua virtude e
habituá-la a desprezar os bens aparentes do corpo.
Os trabalhos
impostos por Euristeu agem como uma "medicina" espiritual.
Proclus argumenta que o que parece "mal" para o indivíduo
é um "bem" para a ordem universal, servindo para purificar
o herói de suas culpas e dos atos terríveis que praticara,
preparando-o para a imortalidade.
Como figura heroica,
Hércules é a imagem da potência demiúrgica que restaura a ordem
do cosmos. Pelos seus trabalhos, ele restabelece a ordem que estava
ameaçada pelas forças próprias ao mundo sublunar. O cosmos para o
Demiurgo é bom, e o herói, pelos seus trabalhos, opera no sentido
do bem e ordenação racional da esfera sensível, tornando-se assim
um sujeito ativo da Providência (Prónoia).
Por exemplo, as
vitórias de Hércules contras os monstros - leão, a hidra, os
centauros, Gerião e outras figuras - significam o triunfo da forma
sobre a indeterminação. Os monstros representam a natureza "errante
e bestial" e a "indefinição material". Ao
derrotá-los, Hércules atua como uma imagem da potência demiúrgica,
sujeitando a "Necessidade" (matéria) à atividade criativa
do "Intelecto" (forma) . Ele restabelece a ordem no mundo
sublunar, que é frequentemente ameaçada por forças desordenadas.
O hino termina com
Hércules residindo no Olimpo. Este é o conceito central de
Conversão em Proclus: tudo o que procede de um princípio volta
naturalmente para ele. A ascensão de Hércules ao Olimpo é a alma
recuperando sua "natureza alada" e unindo-se novamente aos
deuses após vencer o caos da matéria. Seu casamento com Hebe (a
juventude) simboliza a conquista da vida eterna, livre da corrupção
e do sofrimento.
O pedido final por
destinos favoráveis reflete a prática da teurgia ou artes
hieráticas. Proclus defende que as preces e rituais podem ajudar a
alma a se conectar com potências superiores para mitigar os influxos
negativos do destino.
Ao pedir "fados
faustos", o devoto reconhece que, embora o Destino (Heimarmene)
seja poderoso, ele está subordinado à Providência (Prónoia) que
pode converter eventos difíceis em benefícios para a alma no
processo do retorno ao divino que lhe é próprio por natureza.
Embora a vida comum
seja governada pela fatalidade, a disciplina teúrgica permite que o
ser humano se conecte com causas superiores que estão acima da
necessidade do mundo material. Invocar Hércules é apelar àquela
força "firme e inabalável" para que a alma do praticante
seja guiada com segurança através das tempestades da vida gerada
até a estabilidade divina.