Hino a Marte
Oh adorável Marte!
Deus poderoso e fero, da justiça escudo e gládio,
quando a dissídia, face do vetusto caos,
pela ambição comandada, à ordem e ao bem ameaça,
por mandato de Juno, aos arrogantes pões fim.
Da deusa do amor és o consorte, da vida e da família,
da santa união dos esponsais,
dos seus filhos, santo guerreiro e protetor.
Deus dos desditos, aos desvalidos que Roma fundaram,
lhes insuflaste honra, coragem e razão,
edificaram então Imortal império, em teu louvor.
Ilumina-me, ó altíssimo Marte,
e que seja em mim o teu ministério também celebrado!
Comentário do autor
O Hino a Marte celebra-o não como agente cego da destruição e da guerra, como agente da conquista e do morticínio, mas como divindade interpretada no contexto particularmente platônico e teúrgico. Marte é uma entidade supralunar, marcada pelo movimento de permanência, processão e retorno com relação ao Sol, a imagem do Bem. Participando da ordenação cósmica que intercede na esfera sublunar para dar-lhe medida e forma, e não como causa motriz do seu oposto.
Marte é um nume civilizador: atua contra o caos gerado pela divisão quer na alma quer na cidade, sob mandato de Juno, ela que é a deusa da ordem conjugal e cívica — o que os neoplatônicos chamariam de força demiúrgica subordinada à preservação das formas já geradas.
A segunda estrofe introduz a união entre Marte e Vénus, “deusa do amor”, como fundamento da vida, da família e dos esponsais. Aqui emerge um dos grandes temas do neoplatonismo: a complementaridade entre separação e união. Vénus unifica; Marte diferencia. Sem Vénus, o cosmos dissolver-se-ia em conflito incessante; sem Marte, toda distinção desapareceria numa unidade informe. A harmonia do universo depende precisamente da tensão equilibrada entre estes dois poderes. Não é por outra razão que a Harmonia é a filha do casal. Assim, a humanidade, a família, pode proceder no mundo da gênese e construir a civilização, que é, por si, o equilíbrio, a Harmonia, entre as diversidade individuais.
Marte também é o deus dos desvalidos, dos derrotados, dos sem pátria, família ou esperança. Foi um grupo assim que reunido foi pelo filho do deus, Rômulo, e fundou Roma. Não lhes insufla apenas a capacidade guerreira, mas a persistência face a adversidade e à derrota. Roma cresce quando a dificuldade parece insuperável.
Por exemplo, Aníbal passou quinze anos no território italiano. Venceu batalhas que deveriam ter dissolvido Roma, carnificinas sem paralelo. E Roma não negociou. Fez o que nenhuma potência teria feito: recrutou mais, reformou táticas, e triunfou.
Lívio registra o momento depois de Canas com uma estranheza quase mística: o Senado proibiu o luto público. As mães tinham três dias para chorar os filhos, depois deveriam voltar à vida normal. Não era crueldade, era a disciplina a ordenar a sociedade. Roma não podia se permitir desmoronar.
E Aníbal entendeu tarde demais que estava diante de algo que não reconhecia. Ele pensava em termos de coalizões — esperava que os aliados itálicos abandonassem Roma após Canas. Alguns abandonaram. A maioria ficou. Porque Roma havia construído algo que não era apenas dominação: era uma identidade compartilhada do esforço. Mais tarde, Cartago caiu sob a inteligência tática das legiões. O Mediterrâneo tornava-se romano.
Marte lhes deu a ratio, a razão, a disciplina e a perseverança na desdita. Foram os descendentes daqueles desvalidos que procuraram o pitagórico Numa para torná-lo rei de Roma e instituir a ordem civil, dar-lhes deuses, seus cultos e leis justas à cidade.
Marte é a potência que impede a queda do ser na indistinção. Ele combate o caos exterior e interior; preserva as formas contra a corrupção; protege a cidade, a família e a alma; inspira coragem, mas também razão; separa para que a unidade verdadeira seja possível. Sua guerra não é a do ódio, mas a da ordem contra a dissolução. É também a guerra nossa, interior, no sentido da nossa autossuperação através da adversidade, através das frustrações e derrotas.
Como teurgia, Marte não opera a nosso favor alterando por prodígios ou milagres as condições externas, mas tornam nossa alma receptáculo das suas virtudes: honra, coragem e razão.