Hino Órfico a Perséfone
Perséfone, filha do magno Zeus, vem, ó bem-aventurada,
deusa unigênita, recebe com agrado as nossas oferendas;
de Plutão a veneranda esposa, discreta e vivificante,
tu que deténs as portas de Hades sob os abismos da terra,
Vindicadora, de belas tranças, imaculada de Deo a flor,
das Eumênides és a mãe, ó rainha dos subterrâneos;
Zeus a gerou, a donzela, em união inefável,
Mãe do estrondoso e multiforme Eubuleu.
companheira de jogos das Estações, radiosa e de forma esplendorosa,
toda poderosa, jovem que transbordas em frutos, copiosa,
luminosa e crescente, a única desejada pelos mortais.
Tu, que és primaveril e te alegras com as brisas dos prados,
revelando o teu corpo sagrado nos rebentos verdejantes;
tu, que foste raptada e desposada no tálamo outonal,
és tu somente a vida e a morte para os mortais cansados de sofrer.
Perséfone, a todos sempre nutres
e a todos distribuis a morte.
Ouve, deusa bem-aventurada,
e faz surgir novamente da terra os frutos,
florescendo em paz, sob a suave mão da saúde,
numa vida próspera que nos conduza a uma velhice radiosa,
ao teu domínio, ó altíssima soberana,
e ao reino do poderoso Plutão.
Notas do tradutor
Notas do tradutor
Perséfone enquanto "filha única". Nos "hinos órficos" assim como nos textos da antiguidade, como nota Nina E. Livesey no seu livro The Letters of Paul in their Roman Literary Context, a retórica é um dos seus elementos constitutivos. "Filha única" é claramente uma hipérbole, afinal, Zeus teve outros filhos além dela. Porém, como retórica dirigida à divindade, Perséfone é elevada à posição suprema com relação aos outros deuses. No hino órfico referente a Eros, o nume é referido como "de todos os reinos, de todos que os habitam, quem impõe o curso sois vós, nosso Senhor", ou seja, ele ocupa uma posição superior até mesmo a das Parcas, as deusas do destino, outro exemplo de hipérbole. Assim, o termo não deve ser necessariamente entendido como uma afirmação genealógica de que Perséfone fosse a única filha de Zeus, mas como uma forma de exaltar sua singularidade.
Vindicadora. É Perséfone que realiza o julgamento das almas, aquela que estabelece o destino da alma segundo a justiça. Para Plutarco, no seu livro De Facie 28, ela separa as almas que rumarão para o sol, as almas dos justos, daquelas que regressarão ao mundo sublunar, a dos injustos, sob ciclo da transmigração das almas. Ou seja, ela não é Adrasteia, que trata da punição dos mortais ainda em vida. Sua função é de outra ordem.
"Filha de Deo". Deo era outra nome pelo qual Deméter era chamada.
Eubuleu é o porqueiro que teve seus suínos engolidos pela fenda na terra pela qual Orco penetrou com a raptada Perséfone.
Há outra camada interpretativa possível: nas tabuinhas de ouro órficas, ele é chamado de "o de bom conselho". Ele aparece como portador de tocha, papel que sugere condutor de almas na saída do Hades. A associação com a tocha ainda permite uma leitura de Eubuleu como figura de condução no espaço ctônico, embora a identificação estrita com um psicopompo não deva ser tomada como certa.
Crescente. É minha tradução para "cornuda" ou "córnea". Estes cornos são as da lua, em crescente. Ou seja, Perséfone é uma deusa que encontra seu elemento na Lua, como refere Plutarco: ela é soberana do limiar lunar e Deméter, sua mãe, soberana da terra, vide De Genio Socratis (591B). Ou seja, Perséfone vive na fronteira entre o mundo sublunar e o inteligível. Ela separa a psyche do nous, na Lua, e envia este para o Sol ou impera que a alma volte à existência sublunar como pharmakon das suas injustiças.
Por outra, é comum encontrar-se traduções, em português, que são fiéis ao grego, mas soam extramamente mal, por exemplo, traduzir Hera Boōpis (Βοῶπις), como Hera de olhos de vaca. Melhor seria traduzir por Hera de sereno e majestoso olhar - era o que Βοῶπις significava - do que ser literal e ocultar o significado. Lembre-se, são textos gregos e eles davam imensa importância à beleza e à persuassão. Há de se julgar sempre o momento histórico (Kairós) no qual o texto foi produzido e também no qual ele será lido.
Perséfone como a deusa que dá a vida e distribui a morte: nós, mortais, vimos à vida tal e qual Perséfone enquanto Kore, que se une à sua mãe, Deméter, no Olimpo. E morremos, ou baixamos ao Hades, como Perséfone ao retornar ao reino cimério de Hades/Plutão.
Sobre o final do hino, o pedido de uma velhice radiosa e à descida ao reino de Perséfone e de Plutão se conecta com a crença órfica na imortalidade da alma. Como diz a Petélia:
"Dize: Sou filho da Terra e do Céu estrelado;
mas minha estirpe é celeste — isto vós mesmos sabeis.
Estou seco de sede e pereço: dai-me, depressa,
a água fria que mana do Lago da Memória."
Dito isto, a alma "reinarás entre os demais heróis".
Ou seja, no Hades não há a dissolução da alma, mas sua continuidade; a descida ao domínio de Perséfone é passagem de estado, não aniquilação do ser.