domingo, 19 de julho de 2026

Hino Órfico ao Magno Plutão

 Hino Órfico ao Magno Plutão

Ó Tu, que habitas no profundo Orco, 
Do Averno opaco, o pavoroso assento; 
Aceita, ó Nume, em pio e ledo rosto, 
As preces nossas, Tartáreo Tonante!

Ó grão Plutão, que da extensiva Terra 
As chaves guardas, e o mortal sustentas; 
Dando às humanas figuras a messe, 
Os frutos de ouro, que no seio nutres.

Tua é a terça parte, a estância imensa, 
Dos Deuses trono, dos mortais arrimo; 
Tu, que ao Aqueronte os fins estendes, 
E o trono firmas onde o dia murcha.

Dos entes todos o Fado governas, 
Ó Dite sábio! Tu, que à doce vida 
Da prole de Ceres o fado mudaste; 
E a furto, em carro, para o mudo Antro, 
Levaste a noiva, às Tenárias portas.
Dos atos todos és juiz supremo, 
Onipotente, egrégio, e digno de honra; 
Atende ao Vate em pio siso e mudo, 
E às santas aras, favorável, desce!





Notas do tradutor


O Hino Órfico a Plutão/Hades o identifica como monarca da terça parte do cosmos, a qual divide com Júpiter e Netuno. Para Proclus, no entanto, essa divisão é entendida dentro do esquema da tríade:
1. Permanência (μονή, monḗ)
2. Processão (πρόοδος, próodos)
3. Retorno (ἐπιστροφή, epistrophḗ) 
Para ele, Cronos representa a permanência (monḗ); Reia (Hécate), a processão (próodos); Zeus/Plutão, a atividade demiúrgica pela qual o universo é ordenado e reconduzido às suas causas, realizando o retorno (epistrophḗ).

No Averno, a alma é julgada e purificada, sendo por sua providência reconduzida às suas causas intelectuais, cujo símbolo é Cronos, no entanto, não de forma direta, mas através de um longo ciclo de reencarnações.

Ele é o Juiz Supremo, o "juiz dos actos todos", avalia a dignidade do participante para determinar o seu lugar no ciclo de retornos e ascensões, no ciclos da transmigração das almas, garantindo que a justiça cósmica (Dike) se cumpra através da compensação e da purificação. É a garantia de que a Unidade jamais se interrompa, nem mesmo no opaco Averno. Onde o néscio vê a morte, o Hierofante contempla a atividade eterna do retorno à Causa.

É Platão quem assevera que Plutão é um "sofista admirável" pois convence as almas da bondade da esfera avernal. Pode-se muito bem também dizer-se que é ele quem as conduz, por meios da persuasão, ao retorno à existência sublunar. Como ele diz no Fédon, (72c–e): “If all things which partook of life were to die, and after they were dead remained in the form of death, and did not come to life again, all would at last die, and nothing would be alive.” Mais adiante, ele completa: “The living spring from the dead, and [...] the souls of the dead are in existence” ( tradução de  Benjamin Jowett ). Ou seja, o regime do mundo sublunar implica no ciclo interminável da transmigração das alma. Plutão é o Arconte do deste ciclo.

Cabe notar-se que a existência junto à divindade não é condição necessária à salvação. No mito de Er, é justamente a alma que conviveu junto aos deuses, no céu, que faz a pior escolha: a de reencarnar como um tirano que comeria os próprios filhos. 

Ora, foi a alma que contemplou a imagem do Bem, o Uno, o mundo divino que optou pela senda do mal e, ao termo da sua vida terrena, será condenado ao Tártaro, a expiar seus crimes.

Quem fez a melhor escolha? Foi aquele que ouviu o canto das sereias, que segundo Platão entoam suas melodias no Orco, e soube resistir-lhes. Aquele que não foi exposto à imagem do Bem, mas ao sofrimento, ao desafio constante e os superou devido à Métis: Odisseu.

Mesmo junto à divindade, o humano não se afasta do perigo e da dor. É pela métis que ele deve-se conduzir quer no mundo sublunar quer no celestial. Pois ambos esses dois escondem perigos que podem por a perder a felicidade humana.

Porém, nem mesmo a astúcia pode salvar Odisseu do ciclo das reencarnações. É aquele que é agraciado por Prosérpina, Tirésias, que conquista a vitória sobre este ciclo. A sabedoria, que tem olhos para a treva supraessencial na qual habitam os numes, é o único caminho para a salvação. E este será o tema de um hino a ser publicado.
 

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