Hino Órfico ao Magno Plutão
Ó Tu, que habitas no profundo Orco,
Do Averno opaco o pavoroso assento;
Aceita, ó Nume, em pio e ledo rosto,
As preces nossas, Tartáreo Tonante!
Ó grão Plutão, que da extensiva Terra
As chaves guardas, e o mortal sustentas;
Dando às humanas figuras a messe,
Os frutos de ouro, que no seio nutres.
Tua é a terça parte, a estância imensa,
Dos Deuses trono, dos mortais arrimo;
Tu, que ao Aqueronte os fins estendes,
E o trono firmas onde o dia murcha.
Dos entes todos o Fado governas,
Ó Dite sábio! Tu, que à doce vida
Da prole de Ceres o fado mudaste;
E a furto, em carro, para o mudo Antro,
Levaste a noiva, às Tenárias portas.
Dos atos todos és juiz supremo,
Onipotente, egrégio, e digno de honra;
Atende ao Vate em pio siso e mudo,
E às santas aras, favorável, desce!
Notas do tradutor
O hino identifica Plutão como o possuidor da "terça parte". Esta não é uma divisão geográfica, mas a manifestação da Tríade Intelectual Demiúrgica, segundo Proclo. Esta tríade é composta por três "pais" que governam a criação:
1. Cronos: A substância e a permanência.
2. Rhea (Hécate): A potência e a vida.
3. Zeus/Plutão: A actividade e a ordenação do sensível.
Ao ser chamado de "Tartáreo Tonante", isto pode parecer estranho, pois o trovão pertence a Zeus. Contudo, Plutão é o Zeus Khthonios (Jove Terrestre), a Mónada que exerce a Providência no limite inferior da escala ontológica, assegurando que nada escape à Unidade do Todo.
O Arconte da Custódia: "As Chaves Guardas"
O hino atribui a Plutão a guarda das "chaves da Terra". Isto define a sua função na Série Guardiã (phrouretiké), cuja missão é manter a ordem das formas incontaminada pela dispersão da matéria.
Ele controla as "Tenárias portas", o que significa que ele governa a Processão (próodos) das almas para os corpos e a sua Reversão (epistrophé) para o inteligível.
Sustento do Mortal: ao dar a "messe" e os "frutos de ouro", Plutão actua como a causa que, embora transcendente, irradia o Bem até ao último nível de participação, permitindo que a vida subsista mesmo onde o "dia murcha" (o domínio da privação).
A referência ao rapto da "prole de Ceres" (Kore/Perséfone) e ao corte do "fio da doce vida" simboliza a Queda da Alma no domínio da Geração ou do Genesis.
Plutão governa o Destino (Heimarménē), que é a causa das conexões nas realidades corpóreas. Ele não é um captor arbitrário, mas o administrador da Permanência (moné) da alma no seu veículo enquanto ela cumpre o seu período temporal.
É o Juiz Supremo. Como "juiz dos actos todos", ele avalia a dignidade do participante para determinar o seu lugar no ciclo de retornos e ascensões, no ciclos da transmigração das almas, garantindo que a justiça cósmica (Dike) se cumpra através da compensação e da purificação.
O hino encerra com Plutão como uma "luz digna de honra". É a luz é a emanação da Unidade que penetra até à matéria. Plutão é o Arconte que firma o trono no ponto de maior remissão ontológica (huphesis), impedindo que o sistema colapse na indeterminação absoluta.
Ele é a garantia de que a Invariante da Unidade permaneça absoluta, mesmo no Averno opaco. Onde o néscio vê a morte, o Hierofante vê a Atividade Cíclica de retorno à Causa.
domingo, 19 de julho de 2026
Hino Órfico ao Magno Plutão
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