quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Ogígia

 
A desesperação às massas, nefanda e danosa, espraia-se. A furiosa e ardente Alecto o orbe domina; a cizânia, seu conhecido ardil, lutuosa impera.
Do inexorável Averno, o Caos, vetusto monarca, novamente se ergue (1). O tartáreo cortejo o segue. O fim duma Era, inevitável, esperado. A Esperança o recebe e se ri, enquanto as portas de todas as cidades a ele se abrem diante da confiança cega dos mortais, desastrosa desídia!
Ao meu lado, Calipso (2), a formosa filha de Atlas conforta-me e adverte:
— Para si, aqui comigo, o perigo que se abate sobre a sua gente, criatura do tempo (3), não tema. Por decreto dos Fados, a sua idade, como Troia, ao exício há de rumar. Nem a piedade, nem preces, votivas e fragrantes oferendas o seu édito poderão transmutar.
— Domina, reverente peço-lhe desta desdita a explicação.
— A revelação entrego-lha, por Apolo inspirada, assim disse o sábio Políbio (4), do patrício e forte Cipião o mentor: "Nesta idade, a penúria de varões e a míngua de prole fizeram-se gerais por toda a Hélade. Ermas e silenciosas, as cidades tornaram-se, estéreis os campos antes fecundos, sem que a hórrida Belona com guerras ou o miasma pestífero lhes tivesse fulminado.
Brotou antes o mal de uma mais torpe e funesta nascente: entregou-se a multidão ao fausto vão, à sórdida avareza e à estúpida indolência. Desdenham os homens o santo voto conjugal; mas, se ao matrimónio acedem, o sustento aos rebentos que lhes nascem negam, ou apenas um ou dois infantes criam, tão-só para que, educados na covardia e nutridos no luxo, herdem intacto o avaro erário e a fortuna dos pais". Como ontem, hoje impera a seva ambição; modéstia, prudência e sabedoria foram pela opulência trocadas. Como ontem, os ímpios e cegos mortais julgam que basta a razão e as leis para esta situação evitar. Errados estavam e estão. A sua era ao ordenamento divino não se pode furtar, como não o pôde a grega. Tudo aquilo que entrou no ser há de sair, édito do onipotente e grave consílio dos numes, leve-o no conceito. 
Estremeci. O céu violáceo, iluminado pelo Sol avernal do Elísio (5), era tão melífluo como a presença da deusa a ladear-me e instruir.
— É a isto que estou condenado a retornar? Que nefasta condenação à luz é esta (6)?
— Criatura do tempo, abrigo aqui lhe dou. Mas ao ciclo da transmigração está destinado a retornar. Apenas duas raças partilham da Terra: a minha, imortal e para sempre feliz, e a sua, a mortal para a qual o onipotente Jove mistura as jarras do bem e do mal. Porém, porque bebeu das fontes de Ogígia, liberto está de provar as águas do lento e abominável Letes. Assim, a sua memória do que foi e do que agora vê há de perdurar. Quando o conflito na baixa esfera findar, não o posso mais por cá reter.

 

Notas do Autor

1) O Caos é localizado no Averno, vide Virgílio, Eneida VI, 264-267, "Deuses, a quem pertence o império das almas, e sombras silentes, e Caos e Flegetonte, lugares que se calam longamente na noite: seja-me lícito dizer o que ouvi, seja-me permitido, com o vosso beneplácito, revelar coisas mergulhadas na terra profunda e na escuridão".
Em Ovídio, Metamorfoses X, 29: per ego haec loca plena timoris,
per Chaos hoc ingens vastique silentia regni,
Eurydices, oro, properata retexite fata.

2) Calipso: Kαλυψώ (Kalypsṓ), tradicionalmente relacionado com o verbo καλύπτω (kalýptō), que significa cobrir, ocultar, esconder e, por extensão, manter algo fora da vista. Para maior esclarecimento, recomendo o sítio Society for Classical Studies.

3) Criatura do tempo refere-se às almas criadas para o âmbito do devir (o que a tradição posterior chamou esfera sublunar), cf. Platão, Timeu 27d–28a e 41e–42d.


4) Políbio, Histórias XXXVI, 17 (§§ 5-10). Trata-se de uma reinterpretação do seu texto sobre a decadência das cidades. Ele crê que causas materiais levam uma civilização ao colapso. Calipso afirma, pelo contrário, que o ciclo da gênese, desenvolvimento e corrupção são leis cósmicas, divinas, impossíveis de ser alteradas pela razão ou atos humanos. Fazer do racionalista mais lúcido da Antiguidade a testemunha involuntária da lei cósmica é mais que ironia: é opô-lo a Platão, que, pela voz das Musas, afirma na República (VIII, 546a–d): "Para uma cidade constituída como a vossa, é difícil a mudança; mas, visto que tudo o que nasceu está sujeito à corrupção, uma tal constituição não durará para todo o sempre, mas há-de dissolver-se [...] E a dissolução dar-se-á da seguinte maneira: não só para as plantas que crescem na terra, mas também para os animais que vivem sobre ela, ocorrem crises de fecundidade e de esterilidade da alma e do corpo, sempre que as rotações dos círculos fecham as órbitas de cada espécie [...]. Os homens que criastes, embora sejam sábios, não conseguirão, por meio do cálculo aliado à percepção sensível, acertar com a boa ou má geração, mas passar-lhes-á despercebida e gerarão filhos quando não o deviam" (Platão, A República, Livro VIII, 546a–d). Confronto, portanto, Platão e Políbio. 

5) O Sol do Elísio  tem sua fonte no Rapto de Proserpina de Claudiano: amissum ne crede diem: sunt altera nobis
sidera, sunt orbes alii, lumenque videbis
purius Elysiumque magis mirabere solem.
Já na Eneida VI, 640-641, na chegada de Eneias e da Sibila aos Campos Elísios:
largior hic campos aether et lumine vestit
purpureo, solemque suum, sua sidera norunt.
Daí a menção da luz púrpura do sol avernal do Elísio. Faço notar que como este é uma região do mundo inferior, ou seja, do Averno, uso avernal como adjetivo de maneira própria e poética.

6) Eneida VI, 719-721. Eneias vê as almas bebendo o Letes e pergunta ao pai, Anquises:
o pater, anne aliquas ad caelum hinc ire putandum est
sublimis animas iterumque ad tarda reverti
corpora? quae lucis miseris tam dira cupido?