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sábado, 9 de maio de 2026

Hino a Mercúrio - Interpretação de Proclo

Hino Homérico a Mercúrio

Canto o Cilênio Mercúrio, argicida, senhor da ampla Arcádia rica em rebanhos, angélico arauto, portador do caduceu, que os decretos dos deuses anuncia e a Concórdia faz triunfar na corte celestial. Ele nasceu de Maia, a Filha de Atlante, quando se uniu a Jove — deidade na dissimulação engenhosa. Nunca ao coro dos bem-aventurados que para sempre são compareceu e viveu em sombria caverna; ali o Filho de Saturno costumava deitar-se com a Ninfa de belas madeixas, silentes ambos no regaço da lânguida noite, enquanto Juno de níveos braços jazia presa em doce sono; e nem Nume imortal, nem humana criatura jamais o soube. E assim, salve a vós, Filho de Jove e de Maia; convosco comecei, agora passarei a outro canto! Salve, Mercúrio, dador de ínclitas graças, guia astucioso e facundo, que em vossos mistérios sejamos instruídos! 


Interpretação de Proclo


Mercúrio, ou Hermes, é para Proclo o princípio metafísico que opera como mediador, guia e potência intelectiva de compreensão do cosmos sensível.

É o nume da descoberta (heurêsis) e da razão. Maia instila a investigação nas almas capazes de receber a luminosidade superessencial. Assim, a razão é o "rebento da teoria e da busca". Hermes, como filho de Zeus e Maia, representa o momento em que a busca intelectual atinge a iluminação da descoberta. O homem de conhecimento que ensina métodos de descoberta aos outros está a imitar Hermes, o Guia.

Como mediador entre a ordem celestial e a sublunar, Hermes é o responsável por ligar os fins de uma ordem anterior ao início da ordem subsequente, servindo como meio de comunicação em toda a estrutura cósmica. É o intermediário que transmite o conhecimento e a vontade divina até ao nível humano. Por exemplo, é Hermes que transmite a Calipso o decreto de Zeus pelo qual Odisseu deve proceder ao retorno. Da mesma forma, é ele quem recorda a Eneias o imperativo dos Fados: "Se o brilho das altas façanhas nada tem que te inflame e se não empreendes nada com vistas à tua própria glória, vê Ascânio que cresce e as esperanças de teu herdeiro, Iulo, a quem são devidos o reino da Itália e a terra romana" ( Virgílio, Eneida IV ).

Proclo divide as dádivas ou poderes de Hermes em diferentes níveis de realidade:

  • Intelectuais: Bens primários e puramente intelectivos.
  • Discursivos: Aperfeiçoam o pensamento racional e retórico, persuasivo.
  • Purificatórios: Purificam a alma da irracionalidade e moderam os movimentos da imaginação.
  • Naturais: Propiciam o entendimento da natureza e do mundo sensível.
  • Materiais: Conferem os poderes necessários à atividade comercial. Por isso, é considerado o deus guardião dos lucros, razão pela qual o nome "Hermógenes" (personagem do diálogo *Crátilo*) é interpretado como aquele cujo lucro é "um presente de Hermes".

Em suma, para Proclo, Hermes é a Inteligência comunicativa, o Arauto ou Embaixador dos numes, que traduz as verdades inefáveis das ordens superiores para formas que a alma humana pode investigar e compreender.

quinta-feira, 5 de maio de 2022

Hino Órfico a Saturno

Santo pai dos homens e dos deuses que habitam os céus,
onipotente Titã, de engenhoso pensar e dono de força prodigiosa,
que em si contém todas as coisas e que para si as devora,
acorrentado por arcanos grilhões à vastidão silente do mundo.
Saturno, pai do Tempo; Saturno, pai da Eternidade,
Filho de Gaia e Urano, o céu, povoado de estrelas.
Fonte primeira, Titã indestrutível, potestade favorável,
onipresente sobre todo o orbe, seja propício a nossos desejos,
e dê a nós, mortais, um final feliz às nossas vidas,
Dê-nos da transmigração propícia o teu altíssimo consentimento.

Explicações:

Apesar do muito que dizem por aí de Saturno, toda essa besteira proveniente da idade média e da renascença, Proclus é taxativo em afirmar que Saturno é um deus puramente intelectual, é a fonte de toda a inteligência, destarte, é o nume dos filósofos. Citando Proclus na tradução de Thomas Taylor: "...this God the first and most pure intellect. This God, therefore, is the summit of a divine intellect, and, as he ( Sócrates ) says, the purest part of it".

Mas ele não devora os filhos? Não é um deus mal, malígno?

Não, não o é. Os poetas usavam da metáfora para expressar o ciclo da vida através de Saturno. Ele dá a vida a nós, mortais, e nós a ele retornamos no momento da nossa morte para reiniciar um novo ciclo, o ciclo da geração e corrupção ou, simplesmente, o ciclo da gênese. A lembrar que, para os gregos, tudo aquilo que veio a ser, há de deixar de ser, nada escapa ao nascimento e a morte, sendo isto o que nos diferencia dos deuses, o que, porém, não significa a dissolução da alma, pelo contrário, esta continua a viver através de outras identidades. E é Saturno o nume que nos assegura a nós uma boa "reencarnação".

Portanto, esqueça o que a renascença escreve sobre Saturno. Leia mais sobre ele na magnífica obra de Platão e Proclus.