sábado, 14 de julho de 2007

Deuses Lares

Que são os deuses Lares? Ora, em Latim, Lar significa "lareira", "lar", "casa". Seriam eles, assim, deuses domésticos que protegem a habitação e a família. No entanto, sua origem está vinculada ao nascimento de Júpiter.

Segundo Hyginus, quando Júpiter nasceu, Juno pediu a Opis ( Rhea ) que lhe desse o bebê sob sua guarda uma vez que Saturno já havia confinado Orco ao Érebo e Netuno sob as águas do mar e prometera devorar o recém-nascido. Comovida, Opis deu-lho a ela que o escondeu em Creta, na gruta de Dicte. Amaltea tomou-lhe guarda e alimentou-o, já que Juno era apenas uma bela e formosa menina. Saturno, revoltado, saiu em perseguição ao filho por todo o mundo. Quando o Deus menino chorava, Amaltea chamava jovens que batiam com as espadas nos seus escudos de bronze, fazendo tanto barulho que Saturno não conseguia ouvi-lo. Ora bem, na Grécia esses jovens chamavam-se Curetes, em Roma, Lares.

Portanto, da mesma forma que os Lares protegeram a Júpiter, protegem também a nossas habitações e famílias.

Hyginus, Fabulae 139.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

Hino a Zeus Salvador

Ó Zeus, sumo padre todo-poderoso, do Destino e do Universo monarca imperioso. Ó Zeus, deus dos suplicantes, atende à minha prece dita em língua bárbara.

Santo padre, és tu a razão, és tu a inteligência, és tu o império sólido da bondade. Foste apenas tu que ensinaste aos homens que o corpo e a alma em oposição vivem. Se este meu corpo à mãe Terra pertence, minha alma imortal aspira a viver junto a ti, no teu glorioso reino celestial.

Ó santo santíssimo, deus absoluto e supremo, da Discórdia sou fruto, do ferro vem meu coração. Piedade, santo pai, e livra este filho da Terra, descendência terrível de Licaão, da angústia e da aflição que aos mortais é selvagem condição.

Ó tu, Zeus bem-aventurado, pai dos deuses e dos mortais, sejam em mim tuas dádivas, seja em mim teu augusto entendimento, posto que, como tu ensinaste, só a razão livra do mal o homem, só na sabedoria existe para a alma a salvação.

quinta-feira, 12 de julho de 2007

Hino Órfico à Hera

Ó Rainha abençoada, ó deusa, és tu Hera, mulher e irmã de Zeus.
Ó tu que reinas sem par sobre a raça dos homens, tua atenção invoco e suplico.
O ar sublime que respiro é suave como tu. És tu, madre divina, que me nutres com a vida, e inspiras-me cada desejo que arde, aqui, no meu coração.
É esta tua graça, ó rainha entre rainhas, deusa entre deusas.
Mãe das nuvens, compartilhas comigo do teu divino temperamento,
Dá a mim a benção da tua graça, dos talentos que só tu os tens.
Com a benção dos ventos que a ti pertencem, com o mover-se do mar, da terra e dos céus,
Vem a mim, ó imortal bem-aventura, ó deusa Hera do sólio de ouro,
Sê a mim benevolente, acolhedora e serena.

quarta-feira, 4 de julho de 2007

O que é uma divindade "alegórica"?

As divindades "alegóricas" - como Força, Poder, Loucura, Petulância, Fortuna e tantas outras - são assim designadas por não terem "vontade própria" como as demais divindades quer Olímpicas, quer Telúricas quer Subterrâneas.

Por exemplo, na peça de Ésquilo "Os Persas", vemos como a Loucura ( Até ) leva Xerxes à derrota. Porém, a Loucura não tem uma forma definida, não tem personalidade como Marte, Minverva ou Vênus. Ela simplesmente obedece às ordens de Zeus, que "pune os mortais, soberbos em demasia, que pretendem rivalizar com os deuses". Ou seja, ela é um "instrumento" da justiça, ou da vontade, divina.

Em "Prometeu Acorrentado", a Força e o Poder ladeam Vulcano enquanto este prende Prometeu. Vulcano sente-se mal por o fazer, porém a Força e o Poder não exprimem qualquer sentimento, são apenas agentes da vontade de Zeus.

Portanto, Sonho, Sono, Lei, Decência, Pudor, Luxúria, Poder, Loucura e outras tantas divindades que povoam o imaginário da mitologia greco-romana não são nada mais do que os "agentes" das vontades dos deuses soberanos, como Júpiter, Juno, Miverna, Vênus, Prosérpina e outros mais.

Qualquer dúvida sobre isto, abra a Ilíada, Livro I, e leia como Zeus convoca o Sonho para enganar Agamenon. O Sonho - uma divindade alegórica - simplesmente lhe segue o comando, sem hesitações ou sem demonstrar qualquer traço de personalidade.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Deuses Alegóricos: Disciplina, Êxito e Salvação

"Invoca os deuses, mas conduz-te sabiamente. Pois, a Disciplina (Peitharkhia) é a mãe do Êxito (Eupraxia), esposa da Salvação (Soter) ".

Ésquilo

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Interpretação alegórica dos mitos

É muito significativo registrar e fixar que os gregos e romanos interpretavam seu mitos de uma maneira alegórica. Ou seja, não acreditavam que os deuses eram exatamente como eram retratados pelos poetas e vates.

No caso do "Julgamento de Paris", que deu início à guerra de Tróia, Clemente de Alexandria oferece-nos esta interpretação:

"Diz-se que Mercúrio é a linguagem, as instruções pelas quais a mente é informada e educada. Juno é a castidade, Minerva a coragem, Vênus o prazer, e Paris o entendimento. Se o homem é bárbaro e sem cultura, ignorante do julgamento justo e correto, ele irá desprezar a castidade e a coragem, e dará o prêmio, que é a maçã, ao prazer, e assim atrairá a si e aos seus a ruína e a destruição". Como Paris era troiano, era bárbaro; como era pastor, ignorante, e assim atraiu a ruína à Tróia.

Esta citação de Clemente é muito instrutiva pois mostra-nos que por atrás do antropomorfismo da mitologia grega e romana residia um sentido profundamente espiritual e simbólico.

Reencarnação e Destino

Encontra-se em Claudiano, "O Rapto de Proserpina", este diálogo entre uma das Parcas e Orco Estígio, na sua vácua morada, que esclarece qual é a relação entre o terrível Hades e o destino dos mortais.

Pois bem, Láquesis desce ao vácuo reino de Plutão, e dirige-se assim ao Monarca do Inferno:

"Ó tu, Júpiter Estígio, rei da noite, soberano das sombras, que comandas o girar fatal do nosso fiar,
Que imperas sobre o fim e o início de todas as coisas
E ordenas-nos a data fixar do nascimento e da destruição dos corpos dos homens mortais.
Ó Monarca Supremo do Averno, és tu o árbitro supremo da vida e da morte.
Tudo aquilo que vive só veio a ser por teu favor divino,
E após o ciclo da vida se expirar
E as almas baixarem ao teu hórrido e vácuo reino,
És tu a enviá-las de volta à vida,
De volta a habitar novos corpos mortais".

É de se notar que o destino é comandado pelo temível Hades, pois é ele a quem as Parcas se submetem. Assim, não é à toa que Júpiter não altera o destino dos mortais, ele foi escrito pelo seu irmão Dis, o nefasto. Por outro lado, é ele a comandar o ciclo da vida e também o ciclo das reencarnações, junto com a sua bela consorte, a dadivosa Proserpina, aquela que deu vida à raça dos mortais.