sexta-feira, 15 de maio de 2026

Hino Hierofântico a Circe

O prudente e facundo Mercúrio, sutil e poderoso, as almas conduz ao caliginoso Averno de amplos portões. O prado coberto de asfódelos de umas o destino, de outras o hórrido e cruento Tártaro. Cena terrível de se descrever!

Na silente noite, Érebo já vai na sua quadriga a meio do estrelado polo; cá embaixo, pela espessura da mata, vejo aquela que as estações confunde a variedade, que transforma os mais aguerridos varões em torpes brutos, seu sorriso me encanta, seduz, mas dela conheço os artifícios. "A procissão avernal pela noite vai, os manes desditos pela volta à vida imploram, logo o retorno terão! Pelo Orco, o estígio monarca, o perfeito e lastimoso sofista, todos persuadidos que a vida no esquema da matéria sumo bem é!", proclama ela.

Todos eles a Janus seguem, o antigo Caos grego, do umbral das eras o venerando regente. Acima dele as estígias Fúrias revoam, aspérrimas algozes do delito e da insolência.

"Circe, explica-me o que meus olhos veem, a turba do ínfero mundo à mãe Terra visitando. Sentido nisso para mim não há".

"Reinos três, trina monarquia. Terra porém é bem comum. O dia a Febo pertence, Jove olímpico então o império tem. Quando a incerta Diana no cerúleo Aventino caminhando vai, é do profundo Averno a vez".

"É do consorte da belíssima e sábia Prosérpina o terrível engodo, a convencer os manes a esta instância voltar. Veja lá Agamenon, nova Tróia e obedientes exércitos na mente já cogita conquistar e comandar. Helena, outro Páris encontrar, Cícero sua palavra ressoando pelo senado o desejo lhe incita. Em ardis o Orco supera o grego por Minerva protegido. Destarte, o ciclo nunca termina. É assim que o cosmo se orienta, permanência a esta esfera não cabe. Veja lá como Eneias se horrorizava, que triste desejo de vida é este? se perguntava. Mas seu pai, por Orco inspirado, disse-lhe que a glória eterna o esperava, invencível cidade na próxima jornada habitaria. Mas só escombros e desolação, sombra fanada do passado, a Roma desta era, dos troianos o príncipe encontrou. Apenas um mortal, pela sabedoria assinalado, deste danoso conselho escapou, o eleito da dulcíssima Core, o sábio Tirésias, lá em sublime e mais do que feliz permanência para todo sempre vive".

"Sensatez e clemência, feiticeira, são  virtudes que o seu nome não carrega, é o que dizem, mas noto o quão errados são estes juízos", digo.

"Mortais nenhuns me entendem a intenção. Transformo ferozes criaturas, guerreiros habituados ao morticínio, ao saque e ao aprisionamento e venda dos seus iguais em pacíficos animais que contra os seus não se voltam, que nem no gládio ou no escudo são exímios. Por isso, de mim nada tema. Se meus encantos tem poder, é porque da santa e alta inteligência eles provém. Se um dia confuso e em perigo estiver, a mim me invoca que não tardo a vir socorrê-lo”.



Notas do autor:

1. Janus como o antigo Caos grego pode ser encontrado em Ovídio: "Me Chaos antiqui (nam sum res prisca) vocabant", (Fasti I, 103).

2. O Caos e o Averno: Segue Virgílio: 
Di, quibus imperium est animarum, umbraeque silentes,
et Chaos, et Phlegethon, loca nocte tacentia late,
sit mihi fas audita loqui; sit numine vestro
pandere res alta terra et caligine mersas! (Aeneis VI, 264–267)

3. Orco ou Hades como sofista se encontra em Platão: "Hades possui belos discursos. E, segundo esta explicação, ele é um perfeito sofista" (Crátilo 403e). Ou seja, Platão já havia concebido Hades como alguém que governa não pelas correntes, mas pela persuasão. 

4. A frase de Eneias, no texto, "que triste desejo de vida é este?" é tradução de "Quae lucis miseris tam dira cupido?" (Aeneis VI, 721).

5. Quanto à natureza benéfica de Circe transformando sanguinários guerreiros em animais pacíficos, está baseada no diálogo de Plutarco chamado Gryllus (ou Sobre o Uso da Razão pelos Animais). Nele, Odisseu pede a Circe para transformar seus homens de volta em humanos. Circe permite que Odisseu fale com um deles, que foi transformado em porco e se chama Grilo. Para a surpresa de Odisseu, Grilo se recusa a voltar a ser homem. Ele argumenta que a vida como animal é muito mais pura, pacífica e natural do que a vida dos guerreiros humanos. Ele afirma que os homens são escravos da ambição, da violência e da guerra, enquanto os animais vivem em harmonia com as leis da natureza. 

Finalmente, quanto ao diálogo entre o protagonista e Circe. Não vejam aqui nenhum didatismo. Trata-se de um recurso retirado tanto de Virgílio quando de Ovídio. Quando Enéias desce ao Averno com a Sibila, ele faz o mesmo tipo de questionamentos a ela. Da mesma forma, no Fasti de Ovídio, o poema inicial sobre Janus é composto de uma longa série de perguntas e respostas. Isto é um recurso da literatura clássica, um estilo retórico. Não procurem entender um texto inspirado na antiguidade por referenciais críticos coevos. 

 

 

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