quarta-feira, 10 de junho de 2026

E Cura criou o homem

Cruzando o rio, a Cura o lodo avista, 
Absorta a massa entre as mãos levanta; 
Do barro o homem modela, e a Jove implora 
O espírito vital, que o Nume entrega.
Querendo a Cura o nome seu impor-lhe, 
Jove o veda, e o seu clama por direito. 
Tellus então se ergue, e o nome pede, 
Pois seu corpo à imagem ela cedera.
Saturno, o juiz, a lide assim decide: 
Tu, Jove, ao fim, a alma; a Tellus, o corpo; 
Pois que a Cura o formou, que a Cura o reja 
Enquanto o Fado a vida não lhe termine. 
Do nome em dúvida, Homem se proclame, 
Pois que do Humo a substância se tira.

Hyginus - Fabulae, 220


Nota do tradutor

O mito de Cura tem certa importância filosófica decorrente da interpretação de Martin Heidegger em Ser e Tempo. Para ele, o elemento decisivo da fábula encontra-se na sentença segundo a qual Cura conserva o homem enquanto ele viver: "Cura enim quia prima finxit, teneat quamdiu vixerit" (Higino, Fabulae 220). A existência humana aparece, assim, vinculada desde sua origem àquilo que a fábula denomina Cura. Heidegger interpreta essa estrutura como antecipação da sua própria determinação ontológica do Dasein: o ser do homem possui a estrutura da Sorge, do cuidado. A fábula também fornece a Heidegger uma espécie de confirmação histórica para sua análise: ele afirma que sua interpretação ontológica não constitui uma construção arbitrária, pois uma compreensão pré-ontológica do homem como cura já estaria preservada na tradição. A narrativa de Higino passa, desse modo, a funcionar como documento filosófico capaz de tornar visível, em linguagem mítica, uma estrutura posteriormente elaborada pela ontologia fundamental.


Vale ressaltar que há outro aspecto de Cura em Virgílio: "Vestibulum ante ipsum, primisque in faucibus Orci / Luctus et ultrices posuere cubilia Curae" (Eneida VI.273-274). Na entrada do Averno, ou Orco, as Curas vingativas (ultrices Curae) têm seus leitos — ao lado de Luctus, Morbi, Senectus, Metus, Fames, Egestas, Letum, Labor, Somnus, Bellum, das Eumênides e da Discórdia.


Já na Écloga X, encontramos ainda outro sentido: "omnes 'unde amor iste' rogant 'tibi?' venit Apollo: 'Galle, quid insanis?' inquit 'tua cura Lycoris perque nives alium perque horrida castra secuta est'" (Écloga X.21-23). Pode-se traduzir: "todos perguntam: 'De onde te vem esse amor?' Veio Apolo: 'Galo, por que enlouqueces?', disse ele; 'a tua amada Licóris seguiu outro através das neves e dos acampamentos ásperos'". Aqui cura designa aquilo que é objeto da preocupação e da paixão amorosa.


Em Cícero, cura designa "preocupação" no sentido negativo, como “tormento”: "negant enim sapientem idcirco virum bonum esse, quod eum sua sponte ac per se bonitas et iustitia delectet, sed quod vacua metu, cura, sollicitudine, periculo vita bonorum virorum sit, contra autem improbis semper aliqui scrupus in animis haereat, semper iis ante oculos iudicia et supplicia versentur; nullum autem emolumentum esse, nullum iniustitia partum praemium tantum, semper ut timeas, semper ut adesse, semper ut impendere aliquam poenam putes, damna [...]" (De Republica III.16.26). Traduzindo: "Pois negam que o sábio seja homem bom porque a bondade e a justiça, por vontade própria e por si mesmas, o deleitam — mas porque a vida dos homens bons é vazia de medo, preocupação, inquietação e perigo; ao passo que nos maus sempre algum remorso fica cravado na alma, sempre diante dos olhos lhes giram julgamentos e suplícios; e que não há vantagem nenhuma, nenhum prêmio tirado da injustiça tão grande [que compense], de modo que sempre temes, sempre [supões que algo te ameaça] — sempre pensas que paira sobre ti algum castigo, [algum] dano". Neste trecho, é evidente que a vida de um homem bom é vazia de cura, ou seja, de preocupação e tormento.


Dito isto, é a preocupação, o tormento cotidiano, que constitui a condição humana.

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