terça-feira, 16 de junho de 2026

Ode a Minerva

Ode a Minerva
 

Ó Minerva ínclita, de Jove mente e prole, 
O fogo sacro no alto engenho acendes;
Ao mundo, que de brio e vida preenches, 
O Vate cego o inviso enfim contempla.

Ó virgem, que impoluta e não domada, 
Do fino siso és nume claro e puro;
 
R
etórica, que o passo não dispersa, 
Aos sãos princípios o mortal converte.

Se do deus de Leneu o estro zelas, 
O Vate de Quio, em ti absorto e fixo,
Do siso a dispersão lhe preservas, 
Salvo do mundo e dos vulgares nadas.

Ó Nume excelso! Ó luz da grã solércia, 
Que os lumes cerras para o brilho falso,
Dá-nos o voo, a nítida visão, 
No império teu, de divinal luz pleno.

 

Nota do autor

O Hino a Minerva apresenta-nos ela como a personificação da Inteligência Divina, a deusa que impera o regresso das almas do mundo sublunar ao inteligível.

Ela é a "mente e prole" de Jove, a "Inteligência de Júpiter", sujeitando a "Necessidade" à unificação e à ordenação racional. É aquela que irradia o "fogo sacro" da submissão do múltiplo ao Uno.

Ela é a "virgem e não domada", expressão metafórica da sua recusa em ser complacente com a ordem da matéria.

Quanto aos discursos, cito literalmente o Livro XIII da Odisséia quando Minerva alegremente interpela Ulisses: "Falaz e simulado, teria de ser quem te vencesse em toda espécie de enganos, mesmo que fosse um deus a enfrentar-te. [...] Mas vamos, não mais disso falemos, ambos da solércia somos exímios — pois tu és de longe o melhor dos mortais no ardil e nos discursos, e eu, entre todos os deuses, assinalada sou por métis e astúcia."

"Aos princípios o mortal converte" indica que ela é o princípio da conversão, o retorno do efeito à causa, a volta da alma ao mundo dos deuses.

A referência ao deus de Leneu, Dionísio, lembra-nos que foi Minerva quem lhe salvou o coração, quando aquele foi despedaçado pelos Titã, e o levou a Apolo, que lhe operou a ressurreição.

O "Vate de Quio" remete-nos a Homero, o poeta cego, que sob a luz de Apolo e Minerva podem contemplar o reino do inteligível, o domínio das formas e expressá-lo aos mortais através de metáforas e estórias.

O pedido final para "cerrar os lumes para o brilho falso" reflete a necessidade da alma de contemplar a verdade dessas formas e cerrar os olhos aos enganos do mundo sublunar, governados pela Causa Errante da Necessidade. No caso especial de Minerva, seus atos são guiados por Métis, princípio do qual descende. É ela quem acompanha e protege Ulisses durante seu retorno, o homem designado por Homero como polymetis, de inúmeras astúcias. Ou seja, a existência no mundo sublunar é marcada pela convivência com o perigoso e o nefasto, e estes não devem ser meramente evitados, mas combatidos pela inteligência que advém da deusa.Enfim, ela é a deusa da phronésis – a inteligência que sabe o que deve ser feito no momento certo para o bem individual e coletivo. 

O poema termina com o pedido: "dá-nos o voo, a nítida visão", que pode ser interpretado como o pedido pela recuperação da "natureza alada" da alma, para que ela possa voltar à esfera divina da qual é proveniente.

Em suma, o hino celebra Minerva como a Potência Guardiã e Redentora que, através da sabedoria, da ordem e da Métis, resgata o humano da dispersão do baixo mundo e o reconduz à unidade divina.

Recomendo fortemente a leitura do livro de Proclus "On Plato Cratylus", tradução de Brian Duvick, editora Bloomsbury, 2007, para uma compreensão aprofundada dos princípios hermenêuticos do grande filósofo neoplatônico e que me guiaram na elaboração da interpretação desta ode a Minerva.

 

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