Oh venerando Marte!
Deus poderoso e fero, da justiça escudo e gládio,
quando a dissídia, face do vetusto caos,
pela ambição comandada, à ordem e ao bem ameaça,
por mandato de Juno, a ela, aos arrogantes pões fim.
da santa união dos esponsais,
dos seus filhos, santo guerreiro e protetor.
lhes insuflaste honra, coragem e razão,
edificaram então imortal império em teu louvor.
Ilumina-me, ó altíssimo Marte,
e que seja em mim o teu ministério também celebrado!
O Hino a Marte celebra-o não como agente cego da destruição e da guerra, não como agente da conquista e do morticínio, mas como divindade interpretada em um contexto particularmente platônico e teúrgico. Marte é uma entidade supralunar, marcada pelo movimento de permanência, processão e retorno com relação ao Sol, a imagem do Bem. Participa da ordenação cósmica que intercede na esfera sublunar para dar-lhe medida e forma, e não como causa motriz do seu oposto.
Marte é um nume civilizador: atua contra o caos gerado pela divisão quer na alma quer na cidade, sob mandato de Juno, mãe do nume sem a participação de Jove, ela que é a deusa da ordem conjugal e cívica. Ainda mais. Juno, a Hera de Homero, é quem dá forma à ordem diante de Jove na Ilíada (XVI 431-461). Vendo Sarpédon prestes descer ao Dite pelo bronze de Pátroclo, o Satúrnio hesita entre arrebatá-lo vivo do combate ou deixá-lo morrer. Juno, ciente do seu dilema, diz-lhe que não convém livrar da morte um mortal há muito marcado pelo destino: faça-o, se quiser, mas os demais deuses não o aprovarão, e cada um desejará então poupar o próprio filho. E, sapientíssima, ensina-lhe dos opostos a composição : que Sarpédon caia e, expirado, a Morte e o doce Sono o levem à Lícia, onde os seus lhe darão túmulo e estela, a honra devida aos mortos. A Jove só resta dar anuência à prudência da sua consorte e irmã, e as gotas de sangue que derrama sobre a terra são a honra que presta ao filho. O que Juno institui é a soberania da razão sobre o afeto e as paixões, a manutenção racional da ordem cósmica e divina. Ela compõe o limite, a morte sem exéquias no campo de batalha do filho de Jove, e o ilimitado, o amor que Jove lhe dedica e que o leva a cogitar em salvar-lhe a vida. É assim que ela comparece neste hino: não como a que veda, mas como a que ordena, a razão que dá forma ao que sem ela seria dissolução. E é por esse mandato que Marte, seu filho, combate a dissídia.
A segunda estrofe introduz a união entre Marte e Vénus, “deusa do amor”, como fundamento da vida, da família e dos esponsais. Aqui emerge um dos grandes temas do neoplatonismo: a complementaridade entre separação e união. Vénus unifica; Marte diferencia. Sem Vénus, o cosmos dissolver-se-ia em conflito incessante; sem Marte, toda distinção desapareceria numa unidade informe. A harmonia do universo depende precisamente da tensão equilibrada entre estes dois poderes. Não é por outra razão que a Harmonia é a filha do casal. Assim, a humanidade, a família, pode proceder no mundo da gênese e construir a civilização, que é, por si, o equilíbrio, a Harmonia, entre as diversidades individuais.
Marte também é o deus dos desvalidos, dos derrotados, dos sem pátria, família ou esperança. Foi um grupo assim que reunido foi pelo filho do deus, Rômulo, e fundou Roma. Não lhes insufla apenas a capacidade guerreira, mas a persistência face a adversidade e à derrota. Roma cresce quando a dificuldade parece insuperável.
Cito como ilustração, a campanha de Anibal. Ele passou quinze anos no território italiano. Venceu batalhas que deveriam ter-lhe garantido a vitória, carnificinas sem paralelo. E Roma não empenhou a palavra em tratados de paz. Fez o que nenhuma potência teria feito: em vez de ceder ao medo, recrutou nova prole de guerreiros, poliu o engenho das lides e triunfou sobre a audácia de Cartago.
Lívio registra o momento depois de Canas com uma estranheza quase mística: o Senado limitou o luto público. As mães tinham trinta dias para chorar os filhos, depois deveriam voltar à vida normal. Não era crueldade, era a disciplina a ordenar a sociedade. Roma não podia se permitir desmoronar.
E Aníbal entendeu tarde demais que estava diante de algo que não reconhecia. Ele pensava em termos de coalizões — esperava que os aliados itálicos abandonassem Roma após Canas. Alguns abandonaram. A maioria ficou. Porque Roma havia construído algo que não era apenas dominação: era uma identidade compartilhada do esforço. Mais tarde, Cartago caiu sob a inteligência tática das legiões. O Mediterrâneo tornava-se romano.
Marte lhes deu a ratio, a razão, a disciplina e a perseverança na desdita. Foram os descendentes daqueles desvalidos que procuraram Numa para torná-lo rei de Roma e instituir a ordem civil, dar-lhes deuses, seus cultos e leis justas à cidade. Marte nos faz reter na memória e no coração: a ordem cívica é conquista, não herança. Foram indivíduos da mais baixa estirpe que, comandados pelo filho do nume, fundaram a gloriosa Roma.
Como teurgia, Marte não opera a nosso favor alterando por prodígios ou milagres as condições externas, mas torna nossa alma receptáculo das suas virtudes: honra, coragem e razão.