terça-feira, 16 de junho de 2026

A Ira de Juno Termina

A Ira de Juno Termina

 À margem da mádida ribeira, a belíssima ninfa ajusta a sandália ao delicado pé, enquanto o mancebo que a transportou nos braços se afasta pelo cristalino regato do rio Anauros com um dos pés descalço. Ela fita-me com olhos que, de apolíneo fulgor, rutilam como os raios de Febo, e a minha mente logo me dita: Eis um Nume!

— Nomeiam-me Satúrnia, ó ínclito mortal — pronuncia a Deidade com majestoso cenho —; baixo da etérea estância para este vário orbe sublunar novamente inspecionar.

— Que honra a minha, Domina Santíssima! — exclamo eu, absorto em pio espanto —. Concede-me o Fado a elevada mercê de, face a face, contemplar a beleza perene daqueles que para sempre são!.

— Leda me fazes, criatura do tempo — torna a soberba esposa de Jove —. Ah! Se o Pastor do Ida possuíra o teu siso, inda hoje a altiva Ílion, de Príamo glória, sobre os seus muros soberba reinaria!.

— Entendo-vos, dulcíssima Domina — respondo com submissa vênia —. Poucos penetram os arcanos como eu, que sei ter sido o triunfo da Citeréia no certame alheio à honra e ao brio.

— Mortal, explica-te melhor! — insta a Deusa —. Ou a sã Razão te guia, ou a insânia te roubou o juízo!.

— O kestos himas, o cinto de milagrosa sedução que a Citeréia nua ainda vestia, irradiou na mente de Páris um falso e entorpecente engodo. A astúcia e o dolo triunfaram, não a beleza pura. Sem tal ardil, ouso dizer com reverência: a palma do triunfo pertenceria a Vós, Regina altíssima!


— Julgo encontrar um novo Tirésias. Tens de facto a Razão! Que o resultado do concurso  nulificado seja. Vênus não é a mais bela. Minha ira contra os descendentes de Príamo aqui se encerra — anui a Deusa. Ao Olimpo nival agora volvo, onde festejos e néctar me esperam. Tu, no teu elemento e retiro amável deves quedar-te; mas quando Íris, aquela deia que dos mortais a alma do corpo separa, vier visitar-te, ordeno que ela te conduza à minha presença, para que entre os Imortais sejas meu prudente conselheiro.

 

Nota do autor

Isto é uma criação própria sobre o fim da "ira de Juno", peça central da Enéida. Ela se inspira diretamente na obra de Luciano, Diálogos dos deuses, no qual Atena exige que Afrodite/Vênus se apresente a Páris sem vestir seu kestos himas. Como Luciano é uma fonte tardia, do século II DC, não refletindo o texto homérico ou a tradição a ele associada, imaginei uma outra história na qual essa exigência nunca tivesse sido feita e o ardil de Vênus passasse desapercebido.

Esta pequena fantasia assume um tom quase jurídico, romano, que invalida o julgamento de Páris sobre a beleza das três divindades. Quase como se pedisse a anulação do certame por vício de consentimento do julgador, Páris, uma vez que o julgador encontrava-se sob influência de artefato divino destinado a produzir atração irresistível, o kestos himas, Livro XIV da Ilíada, conhecido como Engano de Zeus (Dios Apátē). 

A referência a Íris como aquela que separa a alma do corpo sob o comando de Juno encontra-se na Eneida de Virgílio (Livro IV, 693-695).

A abertura da peça refere-se a Jasão e os Argonautas, quando ele ajuda Juno a atravessar o rio Anauros e perde uma sandália. Porém, tomo essa passagem apenas como referência simbólica de Juno. A história do meu texto não tem qualquer outra relação com a de Jasão. 

A menção a Tirésias não é gratuita. Ele, um mortal, foi árbitro entre uma disputa entre Júpiter e Juno e cegado por esta ao perder a disputa (Metamorfoses, III). O mortal desta estória ocupa a mesma função de árbitro acerca de um problema divino. E de maneira inversa à punição de Tirésias, é recompensado.

A divinização do mortal, por fim, pode parecer exagerada, porém não o é, de acordo com o pensamento romano. O conceito romano de "gratia" considerava que um benefício recebido - no caso de Juno, o fim do ressentimento que ela carregava há tempos - criava uma obrigação (officium) que só se resolve com gratia proporcional à dignitas de quem a deve, não ao tamanho aparente do serviço. E a dignitas de Juno, sendo a maior depois da de Júpiter, não admite nada aquém do melhor a que ela pode conceder a um mortal: a vida eterna junto aos deuses do Olimpo.


 

Ode a Minerva

Ode a Minerva
 

Ó Minerva ínclita, de Jove mente e prole, 
O fogo sacro no alto engenho acendes;
Ao mundo, que de brio e vida preenches, 
O Vate cego o inviso enfim contempla.

Ó virgem, que impoluta e não domada, 
Do fino siso és nume claro e puro;
 
R
etórica, que o passo não dispersa, 
Aos sãos princípios o mortal converte.

Se do deus de Leneu o estro zelas, 
O Vate de Quio, em ti absorto e fixo,
Do siso a dispersão lhe preservas, 
Salvo do mundo e dos vulgares nadas.

Ó Nume excelso! Ó luz da grã solércia, 
Que os lumes cerras para o brilho falso,
Dá-nos o voo, a nítida visão, 
No império teu, de divinal luz pleno.

 

Nota do autor

O Hino a Minerva apresenta-nos ela como a personificação da Inteligência Divina, a deusa que impera o regresso das almas do mundo sublunar ao inteligível.

Ela é a "mente e prole" de Jove, a "Inteligência de Júpiter", sujeitando a "Necessidade" à unificação e à ordenação racional. É aquela que irradia o "fogo sacro" da submissão do múltiplo ao Uno.

Ela é a "virgem e não domada", expressão metafórica da sua recusa em ser complacente com a ordem da matéria.

Quanto aos discursos, cito literalmente o Livro XIII da Odisséia quando Minerva alegremente interpela Ulisses: "Falaz e simulado, teria de ser quem te vencesse em toda espécie de enganos, mesmo que fosse um deus a enfrentar-te. [...] Mas vamos, não mais disso falemos, ambos da solércia somos exímios — pois tu és de longe o melhor dos mortais no ardil e nos discursos, e eu, entre todos os deuses, assinalada sou por métis e astúcia."

"Aos princípios o mortal converte" indica que ela é o princípio da conversão, o retorno do efeito à causa, a volta da alma ao mundo dos deuses.

A referência ao deus de Leneu, Dionísio, lembra-nos que foi Minerva quem lhe salvou o coração, quando aquele foi despedaçado pelos Titã, e o levou a Apolo ( o Uno ), que lhe operou a ressurreição.

O "Vate de Quio" remete-nos a Homero, o poeta cego, que sob a luz de Apolo e Minerva podem contemplar o reino do inteligível, o domínio das formas e expressá-lo aos mortais através de metáforas e estórias.

O pedido final para "cerrar os lumes para o brilho falso" reflete a necessidade da alma de contemplar a verdade dessas formas e cerrar os olhos aos enganos do mundo sublunar, governados pela Causa Errante da Necessidade. No caso especial de Minerva, seus atos são guiados por Métis, princípio do qual descende. É ela quem acompanha e protege Ulisses durante seu retorno, o homem designado por Homero como polymetis, de inúmeras astúcias. Ou seja, a existência no mundo sublunar é marcada pela convivência com o perigoso e o nefasto, e estes não devem ser meramente evitados, mas combatidos pela inteligência que advém da deusa.Enfim, ela é a deusa da phronésis – a inteligência que sabe o que deve ser feito no momento certo para o bem individual e coletivo. 

O poema termina com o pedido: "dá-nos o voo, a nítida visão", que pode ser interpretado como o pedido pela recuperação da "natureza alada" da alma, para que ela possa voltar à esfera divina da qual é proveniente.

Em suma, o hino celebra Minerva como a Potência Guardiã e Redentora que, através da sabedoria, da ordem e da Métis, resgata o humano da dispersão do baixo mundo e o reconduz à unidade divina.

Recomendo fortemente a leitura do livro de Proclus "On Plato Cratylus", tradução de Brian Duvick, editora Bloomsbury, 2007, para uma compreensão aprofundada dos princípios hermenêuticos do grande filósofo neoplatônico e que me guiaram na elaboração da interpretação desta ode a Minerva.

 

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Ode a Ulisses e Métis

Canto o Grego astuto, não por braço e ferro, 
Mas pelo agudo, d’alma, invicto engenho; 
Ante a turba, que em dúvida se abisma, 
A máscara veste, falto d'alma o ente,
Mas, solta a voz, as mentes maravilha, 
Mágico d’expressão, dos peitos dono. 
Triunfador do pélago e do fado, 
Pela destreza em vez da força imensa.
De Ílion os muros, que o Gradivo guarda, 
Cederam do cavalo ao cego dolo, 
Ardil que em paz o estrago mudo oculta, 
Vencendo a lide onde o valor falhara.
Mestre dos recursos contra o abismo, 
No antro do Ciclope a mente activa 
Finge o escape sob a lanhuda prole, 
Rindo da sanha que o gigante cega.
A casa volve, e em mísero mendigo 
Se oculta, e os rivais observa e estuda; 
Qual polvo que às penhas se acomoda, 
Dos disfarces sem conta o herói se vale.
É laço vivo que o mundo encadeia, 
Pela Razão regendo o Acaso vago. 
Preclara e augusta Métis, Nume santo, 
Nesta era de Ciclopes e tiranos,
Aos Penates pátrios, Deusa, me guia, 
Este triste devoto assim lhe suplica
 

 

Nota do autor:

Uso Métis e não Minerva ou Atena por julgar que a primeira encerra o princípio da inteligência prática, da astúcia e dos disfarces. É ela quem fabrica a poção que fez Saturno dormir e permitiu a libertação dos seus filhos. É ela quem impera o tempo como imagem da eternidade, como propõe Platão no Timeus. Pois a poção de Métis liberta de Saturno os filhos: o ciclo do tempo abre-se para o cosmos, os deuses se alinham nas suas esferas pela intervenção divina da deusa. A processão e o retorno no devir se iniciam, combinando identidade e diferença. Como o efeito opera segundo a Causa, Atena faz um movimento análogo liberando Ulisses da permanência na ilha de Ogígia e lhe possibilitando o retorno ao mundo da gênese.


Métis não se manifesta apenas no tempo, no vir a ser, é antes a Suma Mediadora entre o Mesmo e o Outro. Neste sentido, tanto Ulisses quanto Minerva dela participam, não lhe estão no mesmo patamar ontológico. Notem: Ulisses frequentemente se disfarça no curso da Odisseia, isto não é atributo de Minerva, mas de Métis. Ou seja, a associação já é clara no texto. Além do que, deve-se ter em linha de conta, que um dos epitetos de Ulisses era "polymetis", de múltiplas astúcias.

quarta-feira, 10 de junho de 2026

E Cura criou o homem

Cruzando o rio, a Cura o lodo avista, 
Absorta a massa entre as mãos levanta; 
Do barro o homem modela, e a Jove implora 
O espírito vital, que o Nume entrega.
Querendo a Cura o nome seu impor-lhe, 
Jove o veda, e o seu clama por direito. 
Tellus então se ergue, e o nome pede, 
Pois seu corpo à imagem ela cedera.
Saturno, o juiz, a lide assim decide: 
Tu, Jove, ao fim, a alma; a Tellus, o corpo; 
Pois que a Cura o formou, que a Cura o reja 
Enquanto o Fado a vida não lhe termine. 
Do nome em dúvida, Homem se proclame, 
Pois que do Humo a substância se tira.

Hyginus - Fabulae, 220


Nota do tradutor

O mito de Cura tem certa importância filosófica decorrente da interpretação de Martin Heidegger em Ser e Tempo. Para ele, o elemento decisivo da fábula encontra-se na sentença segundo a qual Cura conserva o homem enquanto ele viver: "Cura enim quia prima finxit, teneat quamdiu vixerit" (Higino, Fabulae 220). A existência humana aparece, assim, vinculada desde sua origem àquilo que a fábula denomina Cura. Heidegger interpreta essa estrutura como antecipação da sua própria determinação ontológica do Dasein: o ser do homem possui a estrutura da Sorge, do cuidado. A fábula também fornece a Heidegger uma espécie de confirmação histórica para sua análise: ele afirma que sua interpretação ontológica não constitui uma construção arbitrária, pois uma compreensão pré-ontológica do homem como cura já estaria preservada na tradição. A narrativa de Higino passa, desse modo, a funcionar como documento filosófico capaz de tornar visível, em linguagem mítica, uma estrutura posteriormente elaborada pela ontologia fundamental.


Vale ressaltar que há outro aspecto de Cura em Virgílio: "Vestibulum ante ipsum, primisque in faucibus Orci / Luctus et ultrices posuere cubilia Curae" (Eneida VI.273-274). Na entrada do Averno, ou Orco, as Curas vingativas (ultrices Curae) têm seus leitos — ao lado de Luctus, Morbi, Senectus, Metus, Fames, Egestas, Letum, Labor, Somnus, Bellum, das Eumênides e da Discórdia.


Já na Écloga X, encontramos ainda outro sentido: "omnes 'unde amor iste' rogant 'tibi?' venit Apollo: 'Galle, quid insanis?' inquit 'tua cura Lycoris perque nives alium perque horrida castra secuta est'" (Écloga X.21-23). Pode-se traduzir: "todos perguntam: 'De onde te vem esse amor?' Veio Apolo: 'Galo, por que enlouqueces?', disse ele; 'a tua amada Licóris seguiu outro através das neves e dos acampamentos ásperos'". Aqui cura designa aquilo que é objeto da preocupação e da paixão amorosa.


Em Cícero, cura designa "preocupação" no sentido negativo, como “tormento”: "negant enim sapientem idcirco virum bonum esse, quod eum sua sponte ac per se bonitas et iustitia delectet, sed quod vacua metu, cura, sollicitudine, periculo vita bonorum virorum sit, contra autem improbis semper aliqui scrupus in animis haereat, semper iis ante oculos iudicia et supplicia versentur; nullum autem emolumentum esse, nullum iniustitia partum praemium tantum, semper ut timeas, semper ut adesse, semper ut impendere aliquam poenam putes, damna [...]" (De Republica III.16.26). Traduzindo: "Pois negam que o sábio seja homem bom porque a bondade e a justiça, por vontade própria e por si mesmas, o deleitam — mas porque a vida dos homens bons é vazia de medo, preocupação, inquietação e perigo; ao passo que nos maus sempre algum remorso fica cravado na alma, sempre diante dos olhos lhes giram julgamentos e suplícios; e que não há vantagem nenhuma, nenhum prêmio tirado da injustiça tão grande [que compense], de modo que sempre temes, sempre [supões que algo te ameaça] — sempre pensas que paira sobre ti algum castigo, [algum] dano". Neste trecho, é evidente que a vida de um homem bom é vazia de cura, ou seja, de preocupação e tormento.


Dito isto, é a preocupação, o tormento cotidiano, que constitui a condição humana.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Hino Homérico a Hércules

Cantarei Hércules, de Jove a ínclita prole, 
Herói que entre os mortais poderoso se sublima; 
Em Tebas, das mil danças, de Alcmena veio à luz, 
Quando o Satúrnio das nuvens a envolvera. 
Vagou outrora por terrenos vastos, 
Por mares, sob o império do rei Euristeu; 
Muitos males sofreu, graves trabalhos, 
Mas hoje no Olimpo nival reside, 
Tendo Hebe, de fulgente olhar, por esposa. 
Salve, ó de Jove progênie ditosa,
Dá-me faustos Fados!  

 

Nota ao hino

Na teologia platônica, tal como ela é interpretada por Plotino, Proclus e outros, os heróis são almas humanas assinaladas, que ao baixo mundo descem para ajudar a humanidade, para lhe apontar, através do seu exemplo, mesmo que trágico, o caminho do retorno à ordem divina.

A vida de Hércules é marcada pelos tormentos do mundo sublunar. Como diria Proclus, pelo "impacto esmagador da matéria e do destino" (Heimarmene). 

Por mandato de Juno, a monada da vida e da alma, que utiliza o rigor da provação como uma "medicina espiritual", Hércules sua alma purificou e contra a Necessidade, a ordem demiúrgica de Júpiter por ele imperou. 

Por fim, livre da corrupção e do tempo, a alma de Hércules recupera a sua "natureza alada" e participa da vida divina. 

O Hierofante reconhecendo que a Fortuna também participa da ordem intelectual, roga-lhe fados propícios para que, mesmo os eventos difíceis se convertam em benefícios para o retorno ao divino.

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Hino Órfico às Eumenides

Ouvi-me, ó Numes graves, celebrados, 
Tisífone, Alecto, e tu, Megera; 
Vós, que no Orco, em grutas escondidas, 
Habitais junto ao Estige, horrendo. 
Severas contra o crime e o erro humano, 
Do Fado executoras, ó Rainhas, 
Que a vida extinguis com infausto brilho.
Sem vós não brilha o Sol, nem luz a Lua, 
Nem siso, ou brio, ou flor da mocidade 
Podem do peito afugentar as mágoas; 
Pois da Justiça o olhar, que tudo alcança, 
Vigia as hordas de terrestres seres. 
Ó Parcas de mil formas, que entre as tranças 
As ríspidas serpentes entrelaçais, 
Propícias sede, ó Numes, a este mortal. 


Nota do tradutor

Pode-se estranhar a ausência de paternidade das Fúrias. Pois Taylor a declara na sua tradução:
"Holy and pure, from Jove terrestrial (Zeus Khthonios) born and Proserpine (Phersephone), whom lovely locks adorn."
Porém, essas linhas não existem no original em grego. Logo, na minha tradução estão ausentes. 

Um lembrete: as Fúrias não punem apenas o erro/pecado individual, mas também o hereditário, o miasma ( a mácula ou contaminação espiritual) que se transmite pelo sangue e infesta a linhagem (gênos). A culpa é ancestral e há de ser expiada. 

Pode-se estranhar chamar as Fúrias de "Parcas de mil formas". Mas isto está presente no original em grego: ἀλλά, θεαὶ Μοῖραι, ὀφιοπλόκαμοι, πολύμορφοι. Como dou preferência às designações latinas dos numes, preferi Parcas para traduzir Μοῖραι. 



domingo, 24 de maio de 2026

Hino a Dionísio Areopagita

Celebro aquele, entre os preclaros filósofos,
que, tal qual Odisseu, a Verdade defendeu. 
Quando a mão insolente e profana da tirania
buscava em trevas eternas nos calar, 
De engenho astuto e espírito elevado,
em livros e cartas a antiga Sabedoria verteu. 
Como vetusto fiel do novo culto, disfarçado se apresentou
e, com arte, soube os tiranos enganar. 
Assim sobreviveu, entre sombras e ignorância, a luz
de Plotino e Proclo, a ontologia e a teurgia platônica. 
Um outro credo, fascinado, o divino fundamento copiou:
a Causa Primeira, supraessencial, mais que boa, nele floresceu. 
Intercedeu então Ateneia por nós,
Glória e louvor de Zeus Pai à filha!
E Pletho, o filósofo, veio novamente ensinar. 
Do Norte da Itália ressurgiu o pio ardor,
e o forte Malatesta um novo templo ergueu. 
De toda a Europa acorreram os sábios,
sequiosos, aos antigos textos estudar. 
Ateneia, senhora do segundo Cavalo de Troia,
triunfou — e a Scientia, enfim, renasceu!